Opinião

50 anos de "Laranja Mecânica"

A arte é sagrada, Alex afirma sem dizer


Alexandre Martins
Rafael Amaral
Crédito: Alexandre Martins

Brasília, 20 de abril de 1997. Cinco jovens de classe média alta ateiam fogo em um índio que dormia em um ponto de ônibus. A vítima morre horas depois. O motivo: uma farra entre amigos. O caso ganhou as manchetes e chocou o Brasil.

Nova York, 19 de dezembro de 1971. Estreia "Laranja Mecânica", de Stanley Kubrick, baseado no livro de Anthony Burgess de 1962. Em sua primeira parte, quatro rapazes bebem leite em um bar com decoração exótica e em seguida saem às ruas em busca de sessões de "horror show", o que inclui espancar mendigos e estuprar mulheres.

O pior dos humanos pode ser visto no protagonista Alex, imortalizado por Malcolm McDowell (que deixou Kubrick boquiaberto graças ao seu desempenho em "Se…", de 1969). Com seus três escudeiros, seus drugs, Alex busca o prazer imediato na dor, na violência, na tortura, sem que haja qualquer explicação racional para seus atos.

O filme tem início com seu grande rosto róseo sobre a tela, um pouco curvado, olhar a nos fitar e fornecer, desde o início, o tipo de incursão que nos aguarda: nesse futuro incerto, ou passado estranho, somos cúmplices de Alex - de sua liberdade absoluta para matar e fazer o que quiser e, depois, da imposta castração pelo Estado, que pretende "curá-lo."

Seria simples demais definir Alex como um desmiolado. Não é. Alex ama Beethoven com todas as suas forças, sobretudo a "Nona Sinfonia". Ou seja, Alex, ainda que um idiota, tem o traço que nos separa dos animais: a compreensão da arte e de seu elo com o espírito. Quando um de seus seguidores ri de uma mulher que canta música lírica, o protagonista golpeia-o com um bastão. A arte é sagrada, Alex afirma sem dizer.

Mais tarde, ao ser traído pelos mesmos colegas de farra, o rapaz é condenado a 14 anos de prisão pela morte de uma mulher - a qual ele matou usando a escultura de um pênis. Na cadeia, passa a ler a Bíblia. Em uma das passagens mais importantes, a crucificação, vê-se não no papel de Cristo, mas no do carrasco que chicoteia o Salvador. Alex é verdadeiro: não se culpa pelas posições que assume nas próprias fabulações.

Antes de ser submetido à "cura" e devolvido à sociedade, Alex tem direito ao livre arbítrio, mesmo que para o mal. Ao ser exposto a uma plateia, momento em que se pretende mostrar os resultados do tratamento, o único a se opor ao espetáculo de impotência é justamente o capelão do presídio. A Igreja entende a importância do direito à escolha.

De volta à rua, o rapaz revisita - dessa vez como vítima - todos que machucou e passaram por sua vida: a família, o mendigo, dois dos seus drugs (agora policiais) e o escritor cuja mulher foi estuprada pela sua gangue. Essa representação certeira da vingança social nada tem de verossímil; é propositalmente esquemática no que quer esse grande filme.

Kubrick, a partir de Burgess, joga-nos em um beco sem saída, em dilema ainda atual: é melhor um mundo de homens livres para matar e fazer o que desejam ou de homens submetidos ao Estado e sem poder de escolha? Como se não bastasse, o homem condicionado às entranhas do sistema termina como joguete político, garoto propaganda de um tratamento que busca "reformar" criminosos e angariar votos.

Kubrick é cru, direto e nos faz pensar. Não dá saídas fáceis. "Laranja Mecânica" completa 50 anos neste dezembro e ainda atormenta. Poucos filmes causaram tanta polêmica em seu lançamento. No Brasil da ditadura, foi censurado e, ao ser liberado para as salas de cinema em 1978, trouxe consigo o engraçado episódio das bolinhas pretas, usadas na tela para cobrir as partes íntimas das personagens. O ridículo estava dado.

Em um ensaio de 1973, Burgess conta que ouvia a expressão "laranja mecânica" em um pub londrino antes da Segunda Guerra Mundial. "Trata-se de uma gíria cockney antiga que se refere a uma esquisitice ou insanidade tão extrema que chega a subverter a natureza - afinal, que noção poderia ser mais bizarra do que uma laranja mecânica?" E vai além: "O casamento forçado de um organismo com um mecanismo". Algo como a união de Alex com a ciência.

RAFAEL AMARAL é crítico de cinema e jornalista; escreve em palavrasdecinema.com


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