Opinião

O conde, o abade e Mercedes

O livro é uma das grandes expressões literárias do século 19


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Professor Fernando Bandini
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Em sua exuberância e ritmo insuperáveis, "O Conde de Monte Cristo" conta a inverossímil história de Edmond Dantès, um oficial em ascensão da marinha mercante francesa, traído por ratos que supunha amigos e encarcerado injustamente por 14 anos. Já falei desse romance do francês Alexandre Dumas, uma das grandes obras do Romantismo universal em todos os tempos. Falo hoje de dois de seus personagens fundamentais: o italiano Faria e a espanhola Mercedes. Ela é o amor de Dantès, uma linda e encantadora catalã radicada em Marselha. Ele, um prisioneiro, colega de infortúnio de Edmond, transforma-se no tutor e grande responsável pela transformação do protagonista. Mercedes é uma jovem órfã, sozinha no mundo, amável e prestativa, querida por todos de sua comunidade de imigrantes catalães no sul da França. Mercedes é daquelas heroínas românticas fascinantes, cujos predicados são tantos e tão elevados a ponto de torná-la uma "entidade", um "anjo" idealizado e não uma mulher. No dia de seu casamento com Edmond, o noivo é preso, levado para a tenebrosa ilha de If, e permanece incomunicável. Mercedes procura em vão os que poderiam ajudá-la, sem desconfiar que a prisão foi uma armação arquitetada por canalhas. Depois de longos e penosos dias e meses passados sem notícias, acreditando que Edmond estivesse morto, ela casa-se com seu amigo Ferdinand. Sempre por perto, ombro fraterno para a inconsolável noiva abandonada, Ferdinand é na verdade um dos calhordas que armaram para Dantès. O casal tem um filho. Ferdinand torna-se mercenário e luta na Grécia. Arrivista, ascende na carreira militar. Homem de confiança de um potentado, trai seu antigo protetor. Mercedes nada sabe das trapaças do marido.

Faria, clérigo e político, está preso por sua militância. Na prisão, pela insistência com que fala de um tesouro escondido, é tomado por doido. Ninguém lhe dá crédito. Erudito, dono de um conhecimento extraordinário, sua mente parece uma wikipédia aprofundada e confiável, um HD de trocentos milhões de informações e saberes. Nos longos dias de cativeiro, Faria ensina a Edmond idiomas, história, filosofia, política, astronomia... Mas, principalmente, revela ao jovem inocente aspectos da alma humana, das motivações raramente nobres que movem nossa espécie. Com as informações passadas pelo injustiçado marinheiro, o padre descortina a trama em que Dantès foi enredado. Edmond transforma-se. Reconhecidos os alvos, maquina dia após dia seu contra-ataque. E parte para a desforra. Não sem antes, é claro, conseguir o prodígio de escapar da prisão até então intransponível. A morte do abade, vitimado por um derrame, dá ao amigo a oportunidade da fuga. Na inabitada ilhota de Monte Cristo, o fugitivo encontra o tesouro a ele confiado por Faria. O abade lhe deu todos os instrumentos para empreender sua vingança: conhecimento e riqueza. Há uma cena emblemática na ilha, quando Edmond, mergulhado na caverna subterrânea, encontra o tesouro e reafirma seus planos. Na sequência, sobe num rochedo muito alto e vislumbra o cenário. Vai das profundezas sombrias ao cume de onde pode avistar o mundo a ser conquistado. O mundo do qual quer vingar-se. Debaixo de seus pés está o tesouro que lhe dará as condições materiais para perpetrar sua vindita. Da ilhota vem não só a riqueza, mas o nome e o título nobiliárquico.

Mercedes - o amor nunca esquecido de Edmond - revela-se personagem determinante. Numa sequência dramática tão ao gosto dos folhetins, ela pede ao conde que poupe o filho, desafiado para um duelo. A intercessão de Mercedes atenua o ímpeto de Dantès. Aquele que se considera um deus, ou no mínimo agente especial zero-zero da Providência Divina, vai alterar seus planos. Se Mercedes não modifica, ao menos faz vacilar o anjo vingador.

O romance empolga do começo ao fim. Escrito por Dumas, com a colaboração de seu colega Auguste Maquet, o livro é uma das grandes expressões literárias do século 19 e uma obra-prima a ser lida em qualquer época.(Dedico este artigo a João Francisco, amigo dos livros, leitor agudo que nos deixou tão cedo.)

FERNANDO BANDINI é professor de Literatura do Ensino Médio


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