Opinião

O Natal de Cristo

O templo sagrado acolhia um público respeitável e admirável


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GUARACI ALVARENGA
Crédito: divulgação

Naquela grande cidade, próspera e orgulhosa, ergue-se, num bairro elegante, região dos Jardins, uma majestosa Igreja, muito bela, de duas torres altas. Suas torres se elevam para o céu, como duas mãos divinas, o mais forte símbolo clemente da submissão à vontade divina.

A rica comunidade cristã, com suas mansões iluminadas, carros do ano, que ali frequentam a casa de Deus, entoam cantos e rezas aos céus, mais o fazem, em agradecer, do que pedir os benefícios espirituais da graça celestial.

Foi nesta época de festejos natalinos, que uma luz extraordinária, como raio solar, irradiou meu limitado espírito e tocou no escuro refúgio da alma, onde pulsava um coração seco. Jovem estudante empolgava-me uma vida de prazeres, sem me atentar com mais atenção, aos ensinamentos bíblicos. Por força da distância do lar materno, o final de ano, com estudos e provas, me prenderam em minha pensão estundantil.

Foi anunciada pelo santo templo, na véspera do Natal, a presença de um grande pregador messiânico. Orador famoso pelo seu estilo familiar e bastante coloquial, em falar sobre o Evangelho de Cristo. Nada tinha a perder se não fosse ouvi-lo, pois longe me situava dos meus queridos pais.

Quando entrei na suntuosa Catedral, logo percebi que a expectativa era muito grande. Quem de nós, ungidos pela benção da vida, não aspira se aproximar e se tornar íntimo de Jesus.

Sua mensagem estaria bem próxima de nossa humilde e pobre compreensão, quando as luzes coloridas da cidade enfeitada se confundiam com o brilho das estrelas, a iluminada Igreja abraçava incontáveis fiéis. O templo sagrado acolhia um público respeitável e admirável. Gente de classe, com roupas elegantes e de fino trato. No místico ambiente ouvia-se uma delicada música, que parecia regida pelos anjos celestiais. Um suave clima de forte adoração santa fervilhava no templo.

Seus magníficos vitrais e a rosácea traziam mais luz e cor para seu interior. O estilo de verticalismo e majestade somava-se a ares de supremacia e influência para a população.

O venerável pregador cristão, tão aguardado, se atrasou em alguns ansiosos minutos da hora marcada. Ao iniciar a palestra, pediu desculpas pela pequena demora. Mas se justificou, em boa razão,
seu atraso.

Referiu-se, que a caminho da Igreja, quando estacionava seu carro, encontrou um casal humilde, pedindo abrigo. O casal acabara de chegar à cidade grande. O homem apoiava, em seus braços, uma meiga mulher grávida. Cansados e famintos, desejavam apenas um pequeno lugar para pernoitar e, aí, seguir o destino a ser cumprido. Pensou em ajudá-los.

Assim, antes de iniciar a fala sobre o Evangelho, pediu aos presentes, por saber gente abastada, proprietária de mansões e carrões, e dedicada às coisas de Deus, se alguém, dentre os presentes, pudesse acolher as pobres pessoas. Por certo haveria um canto, uma edícula, um quartinho nos fundos, numa das finas residências, onde pudessem passar a noite e depois seguir seu destino.

Um insensível silêncio se fez ouvir por todo o sagrado recinto. Muitos até baixavam a cabeça e desviavam os seus olhares do pregador. Outros cerravam os olhos, simulando como se estivessem em preces.

Lá no fundo, perto da suntuosa porta de entrada da Casa de Deus, uma pobre senhora, com suas vestes humildes, timidamente, levantou uma mão.

Com a voz trêmula, dirigiu-se ao orador: "Meu senhor, na minha modesta casa tem apenas um quarto, onde durmo com meus dois pequenos filhos. Penso que estendendo um cobertor como cortina, no meio do quarto, eu possa oferecer parte dele, para o casal necessitado."

O orador, então percorreu seu olhar umedecido por toda a plateia silenciosa. Uma lágrima furtiva escapou de seus olhos. Desceu do elevado púlpito e se dirigiu àquela modesta pessoa. Encontrou com ternura suas mãos, contemplou a todos os fiéis e revelou o que tinha de dizer, naquela noite, sobre o espírito de Natal:

"Abençoada senhora, você acaba de dar abrigo, em seu coração, a José, Maria e Jesus."

GUARACI ALVARENGA é advogado


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