Opinião

Quando as relações se tornam abusivas?

As mulheres que sofrem abuso se culpam por sofrer violência


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Yara Schowantz
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Às vezes, quando lemos notícias de uma vítima de relacionamento abusivo que sofreu uma agressão física, podemos julgar o fato de ela não sair daquela relação depois que foi agredida. Porém, é importante entender que um relacionamento abusivo não começa do nada, a pessoa que sofre o abuso, na maioria dos casos, não sofre agressão física no início da relação. Existe um mecanismo que é implicado pelo abusador, não acontece do nada. A pessoa não chega sendo agressiva, ela envolve a vítima com intensidade o que podemos chamar de "bombardeio de amor", se mostrando sempre muito disposto a satisfazer todos os desejos da vítima, sempre solícito, romântico, agradável, carinhoso, apaixonado, chamamos essa fase de idealização, porque é nesse momento que a vítima se convence que achou seu príncipe encantado.

É importante salientar que aqui estou fazendo um recorte pensando nas mulheres que estatisticamente são as maiores vítimas de relações abusivas.

Então, quando a vítima está muito envolvida, apaixonada, investindo seu tempo e sentimentos naquela pessoa, começa a fase da desvalorização. Começam nessa fase os abusos psicológicos e emocionais, que se dão através de críticas e controle quanto ao que a vítima veste, pensa, com quem ela se relaciona, sua capacidade de resolver problemas. Isso confunde quem esta vivendo a relação, estava tudo tão maravilhoso, o que aconteceu? A vítima então se questiona e acredita naquela manipulação, sente que tem responsabilidade nessa mudança de comportamento do outro. Nesse momento, a vítima já está vulnerável, o objetivo do abusador é realmente confundir, fazer ela achar que realmente tem culpa, então começa o ciclo de abuso, que é fase da tensão onde acontecem as brigas e cobranças. Nessa fase podem acontecer várias formas de abusos psicológicos, patrimoniais, morais, invasão de privacidade e controle excessivo na vida da vítima.

A pessoa nesse momento se vê envolvida em um misto de sentimentos, pois o abusador ora acusa, humilha e às vezes agride fisicamente, ora faz juras de amor, pede perdão, diz que vai mudar, mas muitas vezes faz isso usando frases do tipo: "eu faço tudo por você, mas você não ajuda" ou "só te bati porque você...."

Nesse momento, muitas vezes a vítima já desenvolveu a chamada "síndrome de Estocolmo", porque, apesar de tudo o que o abusador faz, ela ainda encontra pontos positivos nele, se sentindo responsável por se esforçar mais e mais, ceder mais, na esperança que ele reconheça seus erros e mude seu comportamento.

As mulheres que sofrem abuso desenvolvem esse tipo de pensamento, se culpam por sofrer violência, acreditam que ela é o resultado de falhas que elas cometeram na relação e é exatamente essa culpa que faz com que elas se despersonalizem, se desconectem de quem elas são, que destroem sua autoestima e desenvolvem a dependência afetiva, fazendo com que elas só se sintam completas quando estão com o agressor, mesmo que isso signifique serem humilhadas, desrespeitadas.

Com a autoestima fragilizada e isoladas da sua rede de apoio, muitas vezes, elas não conseguem avaliar a gravidade da situação e o risco que correm com clareza.

É uma situação muito complexa, com muitas nuances, a violência se instala de forma muito tênue, a agressão física, que é a mais impactante pode levar meses, anos ou nunca acontecer, porém a violência psicológica, mais difícil de ser percebida, causa sofrimento extremo e pode provocar traumas e feridas difíceis de serem cicatrizadas.

O que percebo na minha prática clínica, atendendo mulheres vítimas dessas relações, é que é muito difícil sair de uma relação abusiva sozinha. Além da dificuldade emocional, muitas vezes existe a dependência financeira, o medo do julgamento, pressões familiares e até religiosas para que a vítima permaneça na relação.

Por isso, não podemos julgar essas pessoas, elas são vítimas de pessoas perversas, que se alimentam da autoestima do outro, que sentem necessidade de exercer o poder sobre o outro, que sentem prazer em ver a destruição do outro. Essas vítimas precisam ser acolhidas, cuidadas e precisam de ajuda.

Yara Schowantz é psicóloga clínica, mestranda em Saúde Coletiva


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