Opinião

Não secale

É preciso vencer o medo


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Maria Cristina Castilho de Andrade
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Observei criteriosamente os trabalhos dos alunos da Associação Socioeducacional Casa da Fonte, que tem como mantenedora a Companhia Saneamento de Jundiaí - CSJ, após a apresentação da peça "Marcas da Infância" com a Cia. NarrAr de Teatro, contra o abuso sexual de crianças e adolescentes.

Entenderam o essencial ao se manifestarem: "Não se cale", "Eu tenho voz", "Eu posso mudar o final dessa história", "Agora eu sei que posso contar com alguém", "Se souber de algo assim, ligue 100", "Sei que isso acontece com várias crianças ou adolescentes e quem causa isso são adultos: mãe, pai, tia, tio, pessoas que não pensam e fazem besteira", "Denuncie", "Percebi que há quem se importe com a gente", "Ficar mais atento e não aceitar agressões", "Aprendi a denunciar", "Agora eu sei que posso contar para alguém", "Temos que contar para viver melhor", "Não precisa ter medo. As pessoas vão ajudar", "Todos precisam ter seu espaço respeitado", "Projeto não se cale". Uma das adolescentes, de 14 anos, escreveu: "Um projeto muito educativo para o desenvolvimento dos alunos para uma educação de direitos das crianças e defesa própria. Infelizmente, não são todas as crianças e adolescentes que tiveram o privilégio de ter bons pais e mães, parentes que forneçam carinho, bom convívio familiar... Sempre devemos lembrar de nosso valor e que todos nós temos direitos e devemos colocá-los em prática. Muitos responsáveis sabem dos direitos no Estatuto da Criança e do Adolescente, mas escondem dos filhos. Distorcem isso e usam para benefício próprio contra os próprios filhos, mesmo sabendo que estão fazendo algo errado. E não aceitam quando o próprio filho quer conversar sobre os próprios direitos de educação. Eles tentam "esconder" os direitos dos filhos, quando percebem que estão fazendo algo de errado como agressão física. Eles ameaçam a vítima. Então, algo que também achei interessante, na peça, foi o fato de os apresentadores e participantes ensinarem como que a vítima do agressor pode resolver nas situações de agressão (físicas e verbais) e quem pode nos ajudar, sem que no final a vítima sofra e o agressor seja beneficiado. Outro fato que percebi foi que esses tipos de pais ameaçadores e agressores nunca pensam em como melhorar ou terem um diálogo. (...) Nós temos o direito de nos distanciar, independente de quem seja que nos faça mal. Essa peça foi um ato de autocuidado".

A idealizadora e coordenadora do Projeto é a Dra. Hertha Helena Rollemberg Padilha de Oliveira, juíza no Tribunal de Justiça e do IPAM - Instituto Paulista de Magistrados. Ela acompanha a peça e, ao final, comenta sobre todas as crianças e adolescentes terem o direito a uma vida livre de violência, opressão, crueldade e exploração, direitos que devem ser respeitados pela família, comunidade, sociedade e poder público. Necessário enxergar quando esses direitos são violados. Afirma a juíza: "É preciso vencer o medo. O medo paralisa e só colabora para que as situações de violência e abuso se mantenham".

O projeto teve início na gestão do presidente da Academia Paulista de Letras, reitor da Uniregistral e docente de pós-graduação da Uninove, José Renato Nalini como secretário de Estado da Educação.

As 14 apresentações na Casa da Fonte e entorno, no mês de novembro, foram através da Companhia Saneamento de Jundiaí - CSJ, pela Lei Rouanet. Participaram 3.070 crianças e adolescentes, também das escolas estaduais: "Alessandra Cristina Rodrigues Pezzato", "Dom Joaquim Justino Carreira" e da "EMEBIvo de Bona".

Os autores da peça afirmam "arte, educação e justiça, união dos corpos transmutaDORes no combate e prevenção das violências físicas e sexuais na infância e adolescência".

Uma das meninas, atendidas pela Dra. Hertha, a partir da peça e da escuta, parou de se automutilar. Em lugar de se ferir, quer saber como está o processo. Ou seja, plena consciência de que "eu posso mudar o final dessa história".

A estratégia desse projeto é a resposta adequada para a conscientização: aprender a dizer "não" e, se preciso, denuncie.

MARIA CRISTINA CASTILHO DE ANDRADE é professora e cronista

 


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