Opinião

Enquanto Metaverso é onda, Maya é oceano

Ainda estou assustada com a velocidade de absorção da inovação


Alexandre Martins
Elisa Carlos
Crédito: Alexandre Martins

Faz alguns poucos meses que Zuckerberg, dono do facebook, instagram, whatsapp, mudou o nome da sua holding para Meta, com o objetivo de criar o Metaverso e ele tem tudo para fazer sua nova proposta ser um tsunami. O "profeta" Bill Gates já deixou claro que, nos próximos três anos, todas as reuniões serão virtuais. Mas muito mais interessantes que essas que a gente tem feito hoje pelo zoom. Segundo ele, teremos nossas versões individuais em avatares, capazes de interagir entre si como interagimos materialmente na vida "real".

O metaverso é uma combinação de realidade virtual e aumentada unidas às criptomoedas, redes sociais etc. A realidade virtual cria a experiência sensorial através de interfaces tecnológicas. Enquanto a realidade aumentada é a própria realidade virtual com gadgets (óculos, luvas etc) que potencializam essa experiência. Combinados em redes sociais, emulam as interações sociais, combinados com criptomoedas, emulam a economia; o metaverso promete uma experiência muito próxima da "vida real", em que estaremos presentes sem estar presentes.

Quando ouvi essa história pela primeira vez, em outubro, tive um frio na espinha, e ainda estou assustada com a velocidade de absorção da inovação. Em alguns meses, até startups brasileiras já estão oferecendo apps de reuniões com avatares. Pela minha experiência de mais de 20 anos com inovação, é a primeira vez que vejo algo se alastrar de forma tão rápida.

Meu frio na espinha tem a ver com o conceito por trás do nome Metaverso. A etimologia da palavra vinda da metafísica de Aristóteles, que investiga a realidade transcendente da experiência sensível, que trata da investigação daquilo que está por trás de toda a matéria, da essência do ser. O metaverso traz uma proposta de "expansão" da nossa consciência física para o virtual. Que aliás já foi muito bem ilustrada lá no segundo episódio da primeira temporada do Black Mirror: Fifteen Million Merits, nos longínquos 2011. Neste episódio, da série americana do Netflix, um personagem equivalente a um assalariado de uma empresa qualquer, vive sua vida inteira entre o trabalho (pedalar para gerar energia) e seu cubículo forrado por telas que lhe geram diversos tipos de experiências, incluindo relações sociais que acontecem basicamente virtualmente. O episódio como sempre na série é absolutamente desconfortante.

Confesso que por mais bizarra que possa soar a proposta, o Metaverso parou de me causar espanto quando me lembrei do conceito de Maya. Do Vedanta (tradição espiritual baseada em escrituras antigas da Índia, de onde surgiu a Yoga, Ayurveda, Budismo etc), Maya é ilusão. Os Vedantas acreditam que o mundo que vemos e sentimos, esse mundo de cores e formas é na verdade uma ilusão, já que aqui, nos percebemos indivíduos separados de todas as coisas. Para os hindus, somos todos uma coisa só, assim como para os yoguis, que buscam encontrar-se na unicidade do Todo: o oposto de Maya. De certa forma, Maya já é um metaverso. Pode soar aos ouvidos distraídos, muita bicho-grilheice, mas Platão, que é um filósofo razoavelmente conceituado e aceito pela sociedade ocidental, também concorda. No clássico, mito da caverna de platão, as palavras de Sócrates relatam o mundo das sombras, nas quais, nós presos dentro de uma caverna, acreditamos e defendemos piamente como realidade. A teoria da relatividade nasce porque Einstein recusou-se a acreditar que quando deixasse de olhar para a lua, ela não estaria ali. Pois frustrado, provou o que não quis. Aprendi nos muitos anos de psicanálise, que o que vejo no outro é reflexo de mim.

Pela fé, pela filosofia, pela ciência, pela psicanálise e agora pela tecnologia, acredito cada dia mais que vivemos numa realidade que não é aquilo que parece ser, o que meus olhos e sentidos conseguem captar não é o que de fato há ali na minha frente. O metaverso é só mais uma onda de ilusão, num oceano inteiro ilusório.

ELISA CARLOS é mãe da Nina e da Gabi, yoguini, engenheira, especialista em inovação e head de operações da Softex Nacional


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