Opinião

Outro Natal?

Não me convenço mais do tosco discurso ufanista de que está tudo bem


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Jose Renato Nalini
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Procurei impregnar-me do espírito natalino. Tentei mergulhar nas recordações da infância. Os preparativos tão esperados. O ano parecia nunca chegar ao fim. Eram tempos em que em minha cidade a religião era bem vivenciada. Havia o movimento da "visita do Menino Jesus" a cada lar que se dispusesse a recebê-lo. Começava no dia primeiro de dezembro. Em cada bairro, vinte e cinco residências hospedavam, durante uma noite e um dia, lindas imagens do bambino.

As famílias se esmeravam. Preparavam bonitos altares, com flores e velas. Depois da pequena reza, as crianças recebiam confeitos. Saquinhos de papel crepom repletos de balas, pirulitos, docinhos e até miniaturas de brinquedo plástico.

Caminhava-se inocentemente pelas ruas, a entoar "O meu coração, é só de Jesus, a minha alegria, é a Santa Cruz". Não havia preocupação com violência, com assaltos, com zombarias. Algo brega e caipira? Não. Era a inocência e a boa vontade. Aquela mesma constante do recado emitido pelos anjos: "Paz na terra aos homens de boa vontade".

E hoje?

Confesso minha infinita tristeza diante do desvario instaurado. Não consigo assistir sem indignação à destruição de nossa exuberante biodiversidade, invocar-se a soberania nacional para exterminar o futuro, a incestuosa vinculação de governo e criminosos dendroclastas, grileiros, invasores de áreas indígenas, poluidores impenitentes e impunes da riqueza que se esvai, antes mesmo de ter sido adequadamente explorada.

Não me convenço mais do tosco discurso ufanista de que está tudo bem, de que somos o país do futuro. O futuro chegou e é sombrio. Recessão, estagnação ou um combo de ambas?

Desemprego e fome. Quem diria que "o agro é tudo" conviveria com mais de vinte milhões de semelhantes que passam fome todos os dias? E que mais da metade da população sofre de insegurança alimentar grave? A República pródiga em criar direitos, em prometer a edificação de uma pátria justa, fraterna e solidária, não se incomoda com a falta de saneamento básico, de moradia, de informalidade galopante em todos os setores.

Não leva mais a sério a educação pública, tão respeitada há algumas décadas. O magistério consistia não apenas num sacerdócio, mas era uma carreira disputada. Aqui mesmo, em Jundiaí, já tivemos a magnífica experiência do Instituto de Educação Experimental, de onde saíram talentos que obtiveram, com esforço e convicção, a concretização de seus sonhos.

Vejo com melancolia e uma sensação de asco, a preocupação dos políticos profissionais, ávidos por repartição do escasso dinheiro extorquido de quem trabalha, para obras que não terminam, para conchavos, para o enriquecimento pessoal ilimitado. Não passa pela cabeça deles que daqui a pouco estarão de volta à terra. Serão pó novamente. Receberão na transcendência o castigo que ora recai apenas sobre os excluídos, os carentes, os despossuídos e os invisíveis?

Quem consegue hoje convencer a juventude de que o estudo é suficiente para a ascensão social? Diplomas são abundantes, mas eles já não servem para "vencer na vida". Outros fatores se interpõem, todos eles mesclados de uma incestuosa relação entre o capital selvagem e a política partidária.

A corrupção é a companhia permanente do regime representativo. Quem é que se considera realmente representado? Quem acredita nesta democracia decadente?

É por isso que a proximidade do Natal me traz remorsos. O que a minha geração fez para que o Brasil trilhasse o acelerado retrocesso em que nos encontramos? O que dizer às futuras gerações? Como honrar o nosso compromisso em relação aos que ainda não nasceram?

Ao tropeçar nos moradores de rua, ao ignorar os pedintes e mendigos que nos assediam, ao lembrar das centenas de milhares de vítimas de uma pandemia que não será a última a ser suportada pela humanidade, sinto-me envergonhado de me intitular cristão. Não era isso o que o pequeno judeu nascido em Belém queria para a sua criação. Somos servos infiéis e ingratos. E essa culpa - por ação ou omissão - não se apaga quando desejamos ao próximo um "Feliz Natal".

Algum prognóstico para a urgente, imprescindível e tão distante conversão dos homens para uma coerente observância dos Evangelhos?

JOSÉ RENATO NALINI é Reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras - 2021-2022


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