Opinião

Felicidade pela volta do lugar comum

Antes de uma grande obra o interesse público vem em 1º lugar


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Eduardo Pereira
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Nas notas de fim de ano normalmente se fala do que aconteceu no ano, uma lista dos melhores acontecimentos, dos prêmios e das baixas que infelizmente ocorreram. Mas com tudo o que vimos, é melhor ser alegre do que ser triste, o Natal é a melhor coisa que existe .... e melhor ainda sem a Simone cantando "Então é Natal". Então deixa pra lá que o ano que vem tudo vai mudar.

Para fechar o ano, o Campo de Marte, área de propriedade da cidade de São Paulo, foi negociado com empenho e velocidade recorde com o governo federal. Foi o presente de Natal do paulistano para a Nação (leia-se Ricardo Nunes para Bolsonaro)!

Poderíamos dizer que, antes de uma grande obra ou decisão, o interesse público vem em primeiro lugar! Grandes mudanças foram precedidas de bons projetos que se tornaram icônicos. Veja o Centro Georges Pompidou em Beauborg, foi uma revolução na paisagem cinzenta de Paris, um colorido industrial, um ruido de máquinas, parece que estamos entrando numa experiência. Cabe aqui registrar o falecimento do arquiteto Richard Rogers, seu autor, no último sábado.

Mas, ainda assim, essas grandes obras precisam dessa visão de muito tempo à frente e do interesse público para terem sentido e resistirem à demanda. Isso vale também para a recuperação de uma obra antiga. Bons projetos não precisam ser caros e muito menos só para carros.

Aeroportos sempre foram provocadores de debates e ideias de inovação. Seus projetos foram fantásticos na história da aviação e da arquitetura como o TWA Terminal de Eero Saarinen ou o Terminal do Aeroporto de Madri - Barajas de Rogers.

Na década de 80, o planejado projeto para aeroporto de Caucaia do Alto foi interrompido por conta de impactos ambientais. Foi então transferido para para Guarulhos e está lá até hoje.

Aqui, em 2002, houve um forte movimento contrário a ampliação do aeroporto de Jundiaí, o que levou a SOAPHA, pioneira sociedade de defesa de patrimônio histórico na cidade, a entrar com o pedido de tombamento, no Condephaat, do espaço aéreo para impedir a ampliação. Hoje, quase 20 anos depois, João Borin, presidente na época, lembra que chegamos a entregar pedido também na Assembleia Legislativa de São Paulo. Nenhum dos pedidos foram atendidos, o aeroporto foi ampliado e não causou nenhum dano como aqueles que denunciávamos. Os aeroportos, hoje, trazem grandes negócios em seus sítios aeroportuários, como hangares de manutenção, vendas de aeronaves e até mesmo áreas comerciais, que trazem empregos diretos, indiretos e milhões de reais em impostos.

Tirar o Aeroporto de Marte dali faz parte desses movimentos de obsolescência e de incômodos gerados pelo crescimento de São Paulo. É uma reserva de área fantástica, isso tem um fim que são os desenvolvimentos e os rearranjos para um uso melhor, necessário de ocupar e transformador. Certamente será um importante requalificador urbanístico, dificilmente será pior.

O que se questiona são os valores do negócio, que geram apreensão e desvendam uma rede de negócios que sempre ficava escondida, abrindo espaço, também, para uma possível ilegalidade. Isso não tem novidade, infelizmente vemos isso com frequência. Lembro que, para fazer o museu do Ipiranga, desenhado em 1882 e edificado entre 1885 e 1890, a rede de negócios que provocou até hoje não foi suficientemente mostrada, com base no Núcleo Colonial da Glória, 1877, e com as instalações das olarias e sua exploração aparece o A. Proost Rodovalho que vendia os tijolos produzidos por italianos para a sua construção... 140 anos depois, o edifício restaurado, cujo projeto foi vencedor do concurso nacional de arquitetura para restauro e modernização do edifício-monumento do Museu Paulista realizado em 2017, reabrirá com toda a beleza histórica, com um projeto inovador e as exposições com caráter acadêmico, com respaldo e administração da USP, que será o grande marco dessas comemorações dos 200 anos da Independência.

Viva 2022! Vivam os empreendedores, para que eles saiam também os melhores lugares que consagramos.

EDUARDO CARLOS PEREIRA
é arquiteto e urbanista


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