Opinião

Jesus, o mais humano dos deuses

"Nós acreditamos que Jesus foi um refugiado"


Alexandre Martins
Felipe dos Santos Schadt
Crédito: Alexandre Martins

Inevitável não pensar na vida e obra de Jesus Cristo em épocas natalinas. Embora muitos historiadores levantem a hipótese que o Messias não nasceu no dia 25 de dezembro a data é, sem dúvida, a maior festividade cristã. Gosto de pensar em Jesus nesse período e gosto de pensar o quanto ele era humano. Penso nas coisas humanas que ele teve que fazer para viver, como por exemplo, fugir.

Isso me faz lembrar de uma história de quando eu tinha meus 12 anos. Eu arrumei briga com o valentão da escola: "Vou te pegar na saída" foi a frase que ecoou na minha cabeça depois do intervalo de aula em uma ordinária manhã de abril. Eu não tinha ninguém para me proteger e muito menos força o bastante para enfrentar o aluno mais velho. Fiz o que aprendi com o meu avô: "Mais vale um covarde vivo do que um herói com a boca cheia de formiga". Eu fugi.

Mas o dia seguinte chegaria e eu teria que ir para a escola outra vez e enfrentar o valentão. Implorei para meus pais me mudarem de escola. Meu desespero (dramaticamente exagerado, confesso) rendeu frutos. Fui transferido e encontrei refúgio em um colégio particular. Assim que soube que o valentão não estudava mais na antiga escola, voltei para o ensino público, na antiga escola, livre da ameaça.

O dicionário me ensinou que refúgio é "Lugar seguro para onde alguém vai para não se expor à situação de perigo; abrigo, esconderijo". É por isso que as quase 1 milhão de pessoas que deixaram a Síria nos últimos anos - que já vive sete anos em guerra e causou meio milhão de mortes -, são chamadas de refugiadas. Elas buscam refúgio em outro lugar para se abrigarem do perigo.

Certa vez, o jornalista Bernardo Mello Franco se envolveu em uma baita polêmica ao dizer em uma edição do programa de entrevistas da TV Cultura, Roda Viva, que Jesus foi um refugiado. Ele disse isso após confrontar o então candidato a presidência, Jair Messias Bolsonaro sobre a questão referente aos problemas enfrentados pelos refugiados. O colunista do O Globo foi extremamente criticado pela afirmação. Além das críticas do pastor Silas Malafaia e do historiador Marco Antônio Villa, os internautas invadiram a página do jornalista para dizer que ele não entende nada
da Bíblia.

Bom... Eu convido você, que também não concorda com o jornalista - de que Jesus foi um refugiado -, a revisitar o livro sagrado. Olha só o que encontramos em Matheus 2:13-15

"E, tendo eles se retirado, eis que o anjo do Senhor apareceu a José num sonho, dizendo: Levanta-te, e toma o menino e sua mãe, e foge para o Egito, e demora-te lá até que eu te diga; porque Herodes há de procurar o menino para o matar. E, levantando-se ele, tomou o menino e sua mãe, de noite, e foi para o Egito. E esteve lá, até à morte de Herodes, para que se cumprisse o que foi dito da parte do Senhor pelo profeta, que diz: Do Egito chamei o meu Filho."

Longe de mim fazer qualquer comparação entre a minha história e a de Jesus Cristo. Mas isso me parece familiar. A família de Cristo é instruída a fugir para um lugar seguro para não expor o menino à situação de perigo. Ou seja, foram para um refúgio. Igual aos sírios que precisam fugir para buscar segurança em outro
local.

Jesus, portanto, foi um refugiado.

Mas se você não quer acreditar em mim, tudo bem. Quem sou eu para falar uma coisa dessas do menino Jesus? Então vamos deixar que o Papa Francisco, líder máximo da religião cristã, fale. Em uma declaração de 2014 noticiada pelo portal G1, o pontífice chegou a ligar para refugiados que deixavam o Iraque fugidos dos conflitos no loca. "Nós acreditamos que Jesus foi um refugiado" e "vocês [refugiados] são como Jesus que também foi expulso e teve que fugir ao Egito para salvar-se".

Isso só mostra o quanto estamos próximos de Cristo e o quanto ele está, como bem dito pelos católicos, "no meio de nós". Isso me conforta de certa maneira, pois um Jesus mais humano está muito mais capacitado a nos salvar do que um ser divino que não sabe o que é sofrer como um pobre mortal. E é assim que prefiro pensar Jesus em épocas natalinas, em um deus tão humano quanto nós.

Conhecimento é conquista.

FELIPE SCHADT é jornalista, professor e cientista da comunicação pela USP


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