Opinião

As lições de 2021

Fato inegável: vacinas funcionam e são uma ferramenta fundamental


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Vandemir Francesconi Junior
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O ano de 2021 está chegando ao fim. E os últimos dias de dezembro são sempre um convite à reflexão sobre o que passou. Olhando para trás, que balanço podemos fazer? Em tempos tão desafiadores, com o imponderável dando as cartas, não há uma resposta simples e única. Há vários ângulos que devem ser analisados para que novas lições possam ser aprendidas.

Do ponto de vista da saúde pública, temos muito a comemorar. Depois de um início tumultuado, sem vacina, recrudescimento da pandemia, fechamento de atividades e recordes de mortes diárias, o Brasil conseguiu dar a volta por cima. Ao contrário do que ocorreu em outros países, tão logo os imunizantes chegaram, os brasileiros aderiram em massa à vacinação. O número de casos e mortes caiu drasticamente, o país driblou a variante Delta e a vida foi voltando ao normal - embora a variante ômicron esteja à espreita. Fato inegável: vacinas funcionam e são uma ferramenta fundamental para enfrentar a pandemia.

Do ponto de vista econômico, a resposta é mais complexa e requer mais reflexão. Mesmo com o forte aumento das hospitalizações e óbitos no início do ano, a economia mostrou no primeiro trimestre elevado grau de resistência, exibindo um desempenho melhor do que o observado no mesmo período de 2020, quando a pandemia chegou ao país. O Produto Interno Bruto (PIB) cresceu 1,3% sobre o 4º trimestre de 2020. Para efeito de comparação, no 1º trimestre de 2020 o PIB recuou 2,3% frente ao último trimestre de 2019.

Ponto para os empresários brasileiros, que demonstraram ter aprendido a trabalhar em meio à maior pandemia em cem anos, com muita garra e lançando mão de soluções criativas. Algumas das mudanças, como o home office, e inovações implementadas foram incorporadas de vez ao processo produtivo. Alguém duvida que as reuniões por zoom vieram para ficar?

Para quem seguiu presencialmente, a adoção de protocolos sanitários eficientes (como distanciamento social e máscaras) permitiu a continuidade de diversas atividades econômicas, em particular, da indústria de transformação. Para a consolidar este avanço observado, alguns vetores se somaram: forte crescimento global, impulsionando as exportações brasileiras; canalização para o consumo da poupança das famílias acumulada em 2020; baixo nível de estoques na indústria de transformação; além do avanço da
vacinação.

Ou seja, as perspectivas eram auspiciosas. Infelizmente, frustrando as expectativas, a atividade econômica passou a mostrar um fraco desempenho a partir de abril. O PIB foi ligeiramente negativo no segundo e no terceiro trimestres, quando o imponderável mais uma vez deu as caras. E esta é uma lição que não devemos nunca esquecer: no mundo real, sempre há espaço para o imponderável aparecer.

O desempenho da agropecuária foi prejudicado por eventos climáticos adversos e o da indústria de transformação foi afetado por gargalos nas cadeias produtivas e de suprimentos, além dos custos elevados dos insumos e energia elétrica. A forte demanda estimulada pelas medidas econômicas adotadas no mundo, o aumento do consumo de bens e do preço das commodities resultou em inflação, que no Brasil chegou aos dois dígitos e foi amplificada pela excessiva desvalorização
do real.

Como surpresa positiva, podemos destacar a recuperação do mercado de trabalho. Embora o desemprego ainda esteja elevado, considerando o emprego formal, foram geradas 2,8 milhões de vagas com carteira assinada até outubro 2021. Quando se contabiliza também os informais, foram abertos 5,7 milhões de postos de trabalho até o trimestre encerrado em setembro de 2021, após fechamento de 8,3 milhos de vagas em 2020. O rendimento do trabalho, no entanto, vem mostrando queda em virtude da recuperação dos postos de trabalho serem majoritariamente informais, ou seja, de menor remuneração, e do aumento da inflação ao consumidor.

O ano de 2021 deve terminar com um crescimento do PIB de 4,7%, depois da queda de 4,1% em 2020. No caso da indústria de transformação, a alta deve ser de 5,5% - fechou 2020 retração de 4,4%. Há muitas incertezas no horizonte (controle definitivo da pandemia, ano eleitoral que aumenta a volatilidade dos mercados, questão fiscal, patamar do dólar) e algumas certezas (juros altos e inflação ainda acima da meta de 2022). Este cenário desafiador será tema da próxima coluna.

VANDERMIR FRANCESCONI JÚNIOR é primeiro diretor-secretário da Fiesp e do Ciesp


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