Opinião

Casa dos Braga

Casa dos Braga elenca histórias da meninice de Rubem Braga


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Professor Fernando Bandini
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Reunião de crônicas organizada pelo autor, "Casa dos Braga - memórias de infância" elenca histórias da meninice de Rubem Braga em sua terra natal, Cachoeiro de Itapemirim, no Espírito Santo. Com seu humor e lirismo típicos, Braga relembra a casa de estilo eclético construída em 1910 e comprada por seus pais dois anos depois. Próxima do rio Itapemirim, que corta a cidade, a casa foi o lar da família nas décadas seguintes. Hoje, abriga uma biblioteca pública e um centro cultural. E é nesse casarão que se passam as histórias do menino Rubem, o garoto mais novo de uma prole de sete filhos. Ele conta suas aventuras pelos quintais da região, as pescarias, o futebol na rua, as brincadeiras, as árvores tão amigas, escaladas com habilidade de alpinista. Cajueiros, mangueiras, mamoeiros, belebas... Ops! É preciso explicar."Beleba" ou "bola preta" é a semente da saboneteira, árvore tropical americana, também conhecida por ibaró ou jequiri. O quintal dos Braga tinha um desses tesouros, que fornecia bolinhas de gude perfeitas para se jogar. O cronista esclarece que pela taxa de câmbio da época, cinco dessas bolinhas eram trocáveis por uma de vidro. Havia também um cajueiro, plantado em tempos imemoriais, companheiro de muitas jornadas. Em visita a Cachoeiro, na década de 1960, Braga levou seu amigo, o artista plástico Caribé, para conhecer o cajueiro. E há uma bela crônica de despedida, quando sua irmã lhe escreve informando que a velha e veneranda árvore tombou sob um temporal.

Destacam-se também as histórias do futebol de meia no terrão em frente da casa. Assim como a chegada do calçamento de paralelepípedos, palavra gigantesca e impronunciável para o menino. O novo tapetão de pedra conferiu ao jogo algumas vantagens, como a velocidade da bola, e desvantagens, como os escorregões frequentes em chão mais liso. E o futiba ainda reserva bons momentos como as duas crônicas que envolvem as irmãs Teixeira, um grupo de jovens senhoras que moravam num casarão em frente, na melhor parte do campo da garotada. Implicantes com a gritaria do jogo que sempre esquentava, uma delas, certa vez, perpetrou a mais cruel vingança contra os boleiros. O que a reclamona fez é preciso ler; assim como não se pode deixar de conferir o troco planejado e executado pela trupe de jogadores vingativos. Outras boas histórias envolvem o adolescente Braga como aprendiz de farmácia, encaixado no comércio para aprender um ofício e faturar sua própria grana. Ele confessa sua inabilidade para lidar com fórmulas e frascos. "Sem jeito mandou lembranças", dizia-lhe o farmacêutico toda vez que flagrava o aprendiz apanhando de alguma etiqueta ou no manuseio de produtos. Tem ainda sua jovem "glória literária", quando uma de suas redações tirou dez e foi escolhida para o jornalzinho da escola. E outro de seus textos tido por exemplar foi lido para a classe pelo professor. E - glória suprema e "suave" - duas garotas tiraram cópias da redação, por achá-la "uma beleza". Mas o escritor relembra seu rápido declínio quando, na redação seguinte, achando que abafava, foi acusado de relapso e de não ter levado a atividade a sério, ganhando um cinquinho com o qual desacostumara. Há ainda as histórias envolvendo Zig, um dos cachorros da casa, tipinho invocado sempre disposto a morder transeuntes. Quando alguém reclamava da fera, a mãe de Rubem e dona do cachorro aliviava, dizendo que deviam ter feito alguma para o bicho, "sempre tão bonzinho".

O capixaba Rubem Braga nasceu em 1913. Formou-se em Direito, mas não trabalhou na área. Foi jornalista em publicações de Belo Horizonte, Rio de Janeiro, Recife, São Paulo e Porto Alegre. Correspondente de guerra na Itália, entre 1944 e 1945, acompanhou a Força Expedicionária Brasileira, a FEB, durante a Segunda Guerra Mundial. Como jornalista, viajou muito, tendo percorrido países de quatro continentes. Cobriu, por exemplo, a primeira eleição de Perón, na Argentina, e a reeleição de Eisenhower, nos Estados Unidos.

Notabilizou-se como cronista, conferindo grandeza e reconhecimento a esse gênero literário. Rubem Braga morreu no Rio de Janeiro, em 1990.

FERNANDO BANDINI é professor de Literatura do Ensino Médio


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