Opinião

Algumas mulheres fortes e um meteoro

A despeito do negacionismo e da ignorância, resistimos


Alexandre Martins
Rafael Amaral
Crédito: Alexandre Martins

Ao menos para o cinema, 2021 foi um bom ano. Não há do que reclamar. Filmes de todos os tipos e com bastante qualidade figuraram nas salas e serviços de streaming. Para o crítico, fim de ano é o momento de fazer balanços e eleger os melhores, montar listas com o que realmente fez nosso coração palpitar em diferentes sessões.

Se toda obra de arte é um retrato de seu tempo, 2021 pode ser lembrado como um ano de papéis femininos fortes. Em "Identidade", por exemplo, brilham Tessa Thompson e Ruth Negga como amigas e talvez amantes; em "Nomadland", Frances McDormand como uma mulher sem teto, viajando pelos Estados Unidos; em "O Último Duelo", Jodie Comer como uma dama do século 14, comprada como esposa e estuprada por um "distinto cavalheiro"; em "Ataque dos Cães", Kirsten Dunst como a viúva que termina em conflito com o cunhado boçal e chegado a amostras de macheza. Em comum, são mulheres no limite, confrontadas por um mundo de homens e violadas - de todas as formas - pelos mesmos.

Outras duas - como seus filmes - merecem destaque e nos levam a situações semelhantes: no estupendo "Quo Vadis, Aida?", Jasna Djuricic interpreta uma tradutora que tenta salvar o marido e os dois filhos quando sua cidade é invadida pelo exército sérvio, na Bósnia de 1995. As horas que correm são de desespero, como são em "Caros Camaradas - Trabalhadores em Luta", no qual Lyudmila (Yuliya Vysotskaya), integrante do Partido Comunista na União Soviética dos anos 1960, assiste ao ataque a tiros de agentes da KGB a trabalhadores de uma fábrica - entre eles sua filha - que resolvem entrar em greve.

O heroísmo é dado pela resistência. Como Aida, Jasna é obrigada a traduzir o que os homens dizem, seus acordos, seus destemperos e falsidades. Sua voz será dada apenas como meio entre aqueles que matam uns aos outros. A base da ONU que lhe serve de abrigo momentâneo converte-se em espaço de refugiados, êxodo da pequena cidade na qual qualquer homem é um inimigo em potencial - maridos, irmãos, filhos.

Se para Aida as paixões perderam-se há muito, para Lyudmila ainda há um sopro: em diferentes momentos, ela recorda os tempos "gloriosos" de Stálin no poder, dias em que os soviéticos foram grandes e venceram uma guerra. O momento em questão é outro: os preços sobem, os trabalhadores têm seus salários reduzidos, são vistas filas em mercearias que vendem o básico. Lyudmila encara outra face de seu bloco ideológico: quando o povo resolve se revoltar e fazer greve, o sistema volta as armas ao povo. Não há liberdade possível.

"Quo Vadis, Aida" e "Caros Camaradas" são de 2020 e estrearam no Brasil em 2021. Ambos estão disponíveis no streaming. Suas protagonistas simbolizam bem um ano de resistência, no qual - e de novo - tivemos de enfrentar um inimigo invisível, um vírus que deixou um rastro de morte em escala assustadora. A despeito do negacionismo e da ignorância, resistimos.

Nestes últimos dias do ano, fui ver "Não Olhe para Cima", o novo de Adam McKay. Passa longe dos melhores de 2021, mas vale o programa. Troque o coronavírus por um meteoro e terá um pouco da ideia de que trata o diretor, que antes voltou sua crítica a Wall Street em "A Grande Aposta" e à política em "Vice", sobre o nada republicano Dick Cheney.

A ideia do filme pode ser resumida em algo como "se não pode ser visto, o meteoro não existe". Ou: ignore os especialistas, a ciência, a matemática. É a lógica negacionista em um mundo mais preocupado com o rompimento entre celebridades e escândalos na Casa Branca do que com um evento natural capaz de dar fim à vida na Terra.

Os cientistas interpretados por Leonardo DiCaprio e Jennifer Lawrence descobrem o mamute em rota de colisão com nossa casa e tentam avisar a todos. Na Casa Branca são recebidos com desconfiança. Em programa de tevê, ganham um minguado terceiro bloco e risos dos apresentadores. Isso sem falar dos memes na internet, claro. O grito perde força. "É o fim do mundo, imbecil!" Os poderosos ainda tentam arrancar nacos da situação e converter a tragédia em vitória nas próximas eleições. Ou explorar o minério contido no meteoro. Pedem, em campanha aberta, que a população "não olhe para cima". Um ótimo 2022 para todos.

RAFAEL AMARAL é crítico de cinema e jornalista; escreve em palavrasdecinema.com


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