Opinião

Tudo igual, mas pior

A pandemia exibiu ao mundo um quadro trágico desta 7ª economia mundial


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Jose Renato Nalini
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Amanhã, último dia de 2021. Que ano atípico! O temor continuou a prosperar. As mortes causadas pela covid continuaram. Não se conseguiu cumprir o ritual do luto e as sequelas mostrarão que ele é essencial. Surgiu há milhares de anos e integra a cultura dos homens. Descumprido, abre feridas n'alma que não se cicatrizam.

Continuou banido o abraço, o beijo carinhoso, o formal aperto de mão. As máscaras imprescindíveis dificultaram a identificação de amigos e conhecidos. Para quem usa óculos, difícil impedir que as lentes permanecessem embaçadas.

Tudo o que foi possível, fez-se a distância. Meu universo, a Justiça, funcionou melhor do que na síndrome de Maria Betânia - "olhos nos olhos". Houve pontualidade nas audiências. Obteve-se melhor performance nos acordos. Pois o zoom ou meeting permitem se desligue o som dos que não estão falando. Enquanto que nas audiências tradicionais, não é raro que todos falem ao mesmo tempo.

Localizaram-se testemunhas distantes. Muitos processos antigos oram encerrados. O Tribunal de Justiça de São Paulo chegou a quase sessenta milhões de atos remotos. Produtividade singular e benéfica à pacificação.

Mas tudo insuficiente para concluir que 2021 foi um ano feliz. Tem-se de dar graças à Providência, pelo mero fato de se continuar vivo. Foram milhares os que não conseguiram chegar até aqui. Mas o que espera os viventes em 2022?

A pandemia exibiu ao mundo um quadro trágico e melancólico desta sétima economia mundial, rebaixada para a décima segunda ou décima terceira. Os brasileiros que passam fome são superiores a vinte milhões. Mais da metade da população sofre de insegurança alimentar.

Outros milhões não têm teto, embora a moradia seja direito social fundamental insculpido na Constituição Cidadã. A maior parte dos habitantes desta terra está desprovida de saneamento básico. O desemprego continua galopante.

O espetáculo político é tétrico. Houve quórum para aumentar as verbas destinadas ao Fundo Eleitoral e Fundo Partidário. Houve acordo para o orçamento secreto. Reuniu-se um conjunto de forças para mudar a lei eleitoral com foco na satisfação dos políticos profissionais. Furou-se o teto de gastos, transmitindo ao resto do planeta a mensagem explícita: o Brasil não é um país confiável. Não invistam lá!

A participação brasileira na COP-26 foi pífia. Mentiu-se, descaradamente, com a afirmação de que a Amazônia permanecia tão intocada como se encontrava em 1500. O ministro contra o meio ambiente fez a belíssima declaração de que "floresta equivale à pobreza".

Todos os políticos pensando nas eleições de 2022 e sustentando a matriz da pestilência, o nefasto instituto da reeleição. Desmanche da educação, incentivo ao armamento, sob alegação de que "bandidos têm armas, por que o homem de bem não pode possuí-las?"

O prognóstico para 2022 é terrível. Nada prenuncia dias melhores, ao contrário. Fala-se em "colonização reversa", porque os que têm condições financeiras procuram adquirir propriedades em Portugal e para lá transferem residência e domicílio.

Como transmitir à infância e à juventude a esperança em tempos auspiciosos e promissores?

Quem vivenciou fases de real otimismo, seja nos "50 anos em 5", de Juscelino, com o sonho de Brasília, seja na fase do "ninguém segura este País", não encontra fórmula capaz de seduzir as novas gerações para que acreditem no Brasil.

Na minha infância, o primeiro dia do ano era destinado a dizer "Boas Festas" aos familiares e amigos. Costumava-se retribuir os votos com uma cédula nova de cruzeiro! Acreditava-se que estudar abrisse portas; tinha-se fé em ascensão gradual e contínua. Os filhos ganhariam mais do que seus pais. Alcançariam vitórias por estes apenas sonhadas.

Hoje, a certeza é outra. Não há garantias, não há projetos. Tudo se tornou medíocre. Não se acredita na política. Não se confia em ninguém. Vive-se o "salve-se quem puder".

Onde é que se compra um pouco de esperança para uso próprio e para distribuir para os entes queridos?

Sem aquele fervor antigo, meu desejo é o de que 2022 seja um pouco melhor do que 2021. Que não seja tudo igual, mas ainda pior.

JOSÉ RENATO NALINI é reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras - 2021-2022


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