Opinião

Sintonia fina

Ao entrarmos em férias, nossa adaptação energética não é instantânea


Alexandre Martins
Alexandre Martin
Crédito: Alexandre Martins

Recentemente tive a oportunidade de ter um contato mais estreito com a natureza, enquanto estive em férias com a minha família. Estávamos fazendo uma trilha próximo ao bioma do Pantanal, no centro-oeste do nosso país, cercados de árvores, alagadiços e fauna selvagem.

Em dado momento, o guia do nosso passeio se aquietou e restringiu lentamente os seus movimentos, direcionando o olhar fixamente para um local próximo de onde estávamos, cerca de três metros adiante, na beira do alagadiço. Logo vi o porquê: um belíssimo jacaré do pantanal tomava sua porção de sol, quieto nas proximidades da trilha.

Que privilégio e oportunidade estávamos tendo de observar este animal, solto em seu ambiente selvagem! Sussurrei para o meu filho, adolescente típico da cidade, a palavra "jacaré!..." enquanto me abaixava e indicava suavemente com a mão, para não incomodar o bicho, gesto que ele logo imitou, assim que identificou a cena.

O que eu quero chamar a atenção para o meu caro leitor(a) é o que estas ações não foram tão automáticas para os outros integrantes do nosso grupo, de oito pessoas no total; eles se detiveram da marcha em que estavam, olhando no local onde o jacaré estava e se perguntando em voz baixa - "Onde? Onde?"

"Bem em frente" - disse eu - "ali está a cabeça, depois o corpo e a cauda que vai até aquela pedra" - continuei falando ao mesmo tempo que descrevia em gesto com a mão no ar a silhueta do animal que não era dos maiores da região, porém de tamanho nada desprezível, cerca de um metro e meio do focinho até a seu último couro, na cauda. Logo se seguia a cara de espanto dos meus colegas turistas, recém-saídos da selva de pedra, ao identificar o majestoso animal, imóvel e indiferente à nossa presença, ainda que consciente dela. "Nossa! Deste tamanho e ainda assim eu não estava enxergando! Como ele se camufla bem com o ambiente" - disse um colega de passeio espantado.

Evidente que o animal se camufla bem com o ambiente, dados os milhares de anos (literalmente) que ele teve para evoluir e se adaptar, porém existe algo mais: a nossa percepção é calibrada para o ambiente em que estamos, através de energias e frequências que o nosso corpo etérico, o mesmo que contém os nossos meridianos de energia e pontos de acupuntura, capta do ambiente.

Quando ficamos por muito tempo longe do ambiente natural, vivendo nas grandes cidades e em ritmo contínuo e estressante, a nossa grade energética, o conjunto dos nossos canais de energia, entra em sintonia e ritmo com este ambiente, sintonizando as coisas que lhe são próprias e lhe caracterizam, como o ritmo acelerado das coisas, o grande volume de tarefas que precisam ser resolvidos diariamente, o sentimento de escassez e urgência constantes.

Ao entrarmos em férias mudando para um outro ambiente, mais natural, mais calmo e sereno, a nossa adaptação energética não é instantânea, especialmente se passamos muito tempo mergulhados no nosso ritmo louco. Acontece então, nesse período em que estamos nos adaptando e re-sintonizando com o novo ambiente, de não observarmos, não percebemos o óbvio diante dos nossos olhos, como um animal saído da pré-história, com 40 quilos de peso e um metro e meio de comprimento, alguns passos adiante da nossa trilha.

Fica aqui, então, a reflexão da importância desse período entre as festas do fim do ano, para calibrar a nossa energia em um ritmo mais calmo, sendo esse, inclusive, um dos objetivos das "férias" para produzir verdadeiramente a sensação de descanso e renovação energética tão necessária para a nossa saúde.

Sendo este um período onde costumamos fazer projetos para o novo ano que brevemente se iniciará, cabe o meu conselho que entre eles esteja se conectar com mais frequência com o mundo natural, não ficar distante das nossas próprias origens por longos períodos de tempo, evitando que sejamos surpreendidos, metaforicamente, com a silhueta de um "jacaré" em forma de doença, na trilha da nossa vida no ano de 2022.

Um ajuste fino da nossa sintonia com a natureza do ser humano, calma e perfeita com o ambiente que o cerca, previne este tipo de "espanto" pois aguça a nossa percepção para o óbvio diante de nós.

Fica o meu desejo de feliz ano novo a todos, com saúde, prosperidade e alegria. Até o ano que vem!

ALEXANDRE MARTIN é médico formado pela Unicamp e especialista em Acupuntura e Osteopatia


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