Opinião

Não olhe para cima

Parece que a destruição do mundo não atrai muitos likes


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Fabio Jacyntho Sorge
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A comédia "Não Olhe Para Cima" foi o grande assunto do final de 2021. Lançada na Netfilx, o filme conta as desventuras de um grupo de cientistas, Randall Mindy (Leonardo DiCaprio), Kate Dibiasky (Jennifer Lawrence) e Oglethorpe (Rob Morgan), que descobrem um meteoro vindo em rota de colisão à Terra e que, em seis meses causará enorme destruição, mas é ignorado por autoridades, imprensa e a população em geral.

É impressionante como a obra do diretor Adam McKay conseguiu com precisão captar a essência destes tempos ásperos que vivemos. O longa faz uma grande caricatura da sociedade, a começar pelos políticos, com a presidente Janie Orlean (Meryl Streep), que é uma bela representação dos populistas que atualmente ocupam diversos cargos no executivo mundo afora. Ela é negacionista e totalmente contrária à ciência, ignora os avisos dos cientistas, preocupada com a indicação de seu candidato para a Suprema Corte. A presidente Orlean é a cara de Donald Trump e Jair Bolsonaro, tosca e despreparada para o cargo que exerce. Interessante que ela tem um filho, Jason Orlean (Jonah Hill), nomeado Chefe de Gabinete da Casa Branca, que nos remete ao vereador Carlos Bolsonaro, pelo seu alto grau de dependência de mãe e deslocamento da realidade.

Também dão as caras no filme, à imprensa que desinforma, já que no programa comandado por Brie Evantee (Cate Blanchett) e Jack Bremmer (Tyler Perry), se ignoram as notícias sérias sobre o meteoro, para tratar da reconciliação de uma celebridade Riley Bina (Ariana Grande), com seu namorado, em um show de futilidades, tão em voga atualmente. Parece que a destruição do mundo não atrai muitos likes.

Nesse ponto, vale citar ainda desqualificação da personagem, Kate Dibiasky, que ao perder a paciência com a inação de todos, é tratada como se fosse histérica, vira meme, quando na verdade, o que a move é a preocupação diante da queda iminente do meteoro. E isso, infelizmente, ainda é muito comum para diversas
mulheres.

Para o panorama ser completo, temos ainda o bilionário Peter Ihserwell (Mark Rylance) que é o CEO de uma grande empresa de tecnologia, que tem enorme poder político, já que, em uma das cenas, retira a presidente Orlean para conversar, bem como é quem dá as ordens a ela. Interessante notar a total falta de empatia do personagem, não responde a uma criança que diz que o ama, bem como a sua total arrogância, age como se fosse um deus na terra. Além disso, fica evidente a busca desenfreada pelo lucro, já que ele impede uma primeira tentativa de destruição do meteoro, faz os foguetes voltarem, pois quer explorar o material do qual o corpo celeste é feito, ou seja, ele sugere um plano de explodir em partes o cometa, para colher o material e, claro, empregar em suas empresas.

Nada melhor do que fazer uma caricatura para expor as situações ridículas. O filme, que pretendia tratar dos problemas climáticos, foi feito antes da pandemia, acabou se tornando mais atual, exatamente pela postura de várias autoridades, pessoas e do público em geral ao longo da crise da covid-19.

O negacionismo, que voltou com força em nossa época, é irmão de algo preocupante e característico do nosso tempo, o abandono da ciência e da razão. No fundo, vivemos uma crise desses dois valores, que foram erguidos a pilares da humanidade, especialmente nos séculos 19 e início do 20. É a nossa descrença na ciência, como método de investigar e revelar a natureza das coisas de modo objetivo que transforma o mundo neste diálogo de doidos.

A pós-verdade, que consiste em uma informação ou asserção que distorce deliberadamente a verdade, ou algo real, caracterizada pelo forte apelo à emoção, e que, tomando como base crenças difundidas, em detrimento de fatos apurados, tende a ser aceita como verdadeira, influenciando a opinião pública e comportamentos sociais, certamente nos levará a ruína.

É mais fácil não olhar para cima e não ver um meteoro, do que tomar medidas impopulares que sejam para salvar o planeta.

O filme retrata com precisão a situação que vivemos, bem como a nossa enorme dificuldade de nos comunicar para resolvermos problemas comuns a toda a humanidade. Não conseguimos falar uns com os outros, sem ofensas, brigas e xingamentos. As redes sociais costumam refletir o grau de selvageria com que lidamos com o outro e a discordância.

E aqui, talvez seja importante pensar em formas para retomar o diálogo, com a busca pela construção de alguns consensos, mínimos que sejam, mas que permitam ao menos algum grau de convivência, especialmente para quem pensa de forma diferente da minha. Esse talvez seja o maior desafio para este ano de 2022.

FÁBIO JACYNTHO SORGE é defensor público do estado de São Paulo e coordenador da Regional de Jundiaí


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