Opinião

Os desafios de 2022

Descompasso de suprimentos será um dos fatores contra o crescimento


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Vandemir Francesconi Junior
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O ano de 2022 será bastante desafiador para a economia brasileira. A atividade econômica,que já está em marcha lenta, enfrentará mais obstáculos e a incerteza deverá dar o tom dos próximos doze meses. O fato de ser um ano eleitoral traz ainda mais volatilidade para os mercados, o dólar e pressão sobre o quadro fiscal -sem falar na pandemia que entra em seu terceiro ano e, apesar da vacinação, ainda pode surpreender com novas variantes.

De acordo com os últimos dados disponíveis do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a economia tem andado de lado e este quadro se prolongará 2022 adentro. Na passagem de setembro para outubro passados, o comércio registrou leve queda de 0,1%, contrariando a expectativa de crescimento,afetado pela alta da inflação que corrói a renda das famílias e impacta negativamente o consumo.

No mesmo período, os serviços caíram 1,2%. Embora seja a segunda retração seguida no setor, este segmento foi o último a retomar as atividades, então vem com uma demanda reprimida. Registra alta de 8,2% nos doze meses terminados em outubro e está acima do patamar pré-pandemia. Especificamente os serviços prestados às famílias, como restaurante e as atividades ligadas a viagens, ainda serão alavancados pelo avanço da vacinação por algum tempo.

Já a produção industrial recuou 0,6% entre setembro e outubro, na quinta queda consecutiva do indicador. Do ponto de vista da indústria de transformação, boa parte de 2021 foi marcada pela continuidade dos gargalos na cadeia global de suprimentos, impactando fortementeo setor com atrasos nas entregas e estoques em queda por grande pressão de custos. A indústria automobilística e o setor elétrico e eletrônico,muito afetados pela escassez de semicondutores,são os que mais têm sofrido comeste desarranjo.

Esse descompasso na cadeia de suprimentos será um dos fatores a jogar contra o crescimento econômico neste ano. Podemos elencar ainda: elevado custo das matérias-primas e da energia elétrica, alta do desemprego e da inflação, que só deverá ceder em meados do ano, a incerteza fiscal e a taxa de juros elevada. No caso particular da indústria de transformação, está em curso um processo de troca do consumo de bens por serviços, quadro inverso ao dos primeiros meses da pandemia, quando este segmento viveu um boom. O cenário externo também será um fator de pressão, pois diversos países estão promovendo aperto monetário e a economia chinesa está em desaceleração.

O maior vetor de incerteza para 2022, no entanto, é o fato de ser um ano eleitoral.Tradicionalmente, anos eleitorais trazem imensa volatilidade à economia brasileira e grande pressão fiscal. Desta vez, com a acirrada polarização, não será diferente. O mercado olhou com desconfiança a aprovação da PEC dos Precatórios, instrumento utilizado para financiar o Auxílio Brasil, com impacto negativo no preço dos ativos financeiros. De toda forma, este o novo programa de transferência de renda do governo é importantíssimo para dar suporte à parcela mais vulnerável da população.

Além do adiamento do pagamento dos precatórios, as expectativas fiscais também foram afetadas pela a mudança de cálculo do Teto dos Gastos, que abriu mais brechas para elevar a despesa pública, inclusive engordando o fundão eleitoral. Resultado: subiram os juros, o risco país, em função das dúvidas sobre a trajetória das contas públicas, e o real se desvalorizou ainda mais, com reflexo negativo sobre a expectativa de crescimento da economia.

Os juros altos, aliás, serão um grande desafio para os empresários e as pessoas físicas que precisam tomar empréstimo. A taxa Selic deverá atingir dois dígitos no início do ano, saindo do patamar de 2% em fevereiro de 2021 para 11,5% no prazo de um ano, segundo as estimativas do mercado. Um salto desta magnitude afeta em cheio o custo do crédito, desestimulando as empresas a investir em novos projetos. E um patamar tão elevado compromete a atividade econômica.

Com tanta incerteza e tantos desafios, 2022 se apresenta como um ano de baixo crescimento da economia. Nossas estimativas são de que o PIB nacional cresça 0,5% - a indústria de transformação deverá ter igual desempenho. Será necessário que surjam surpresas positivas para alterar o quadro desenhado no momento.

VANDERMIR FRANCESCONI JÚNIOR é primeiro diretor-secretário da Fiesp e do Ciesp


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