Opinião

Onde está tudo aquilo agora?

Reconhece inúmeros erros e vacilos da esquerda tradicional


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COLUNISTA PROFESSOR FERNANDO BANDINI
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Livro de memórias de Fernando Gabeira, "Onde está tudo aquilo agora - minha vida na política" percorre cinquenta anos de militância do autor e retrata o panorama político, social e cultural do Brasil, entre as décadas de 1950 e 2010. Jornalista e escritor, na ativa aos oitentinha de idade, Gabeira é desses personagens importantes para se entender o que ocorre no país e no mundo. Mineiro de Juiz de Fora, integrou centro acadêmico no ensino secundário em sua cidade natal. Desde garoto, curtia as publicações que chegavam da então capital federal, o Rio de Janeiro. A revista "Senhor", com sua arrojada e inovadora paginação, era das preferidas e ajudou o rapazote a definir seu futuro profissional. Passou a colaborar com jornal local, antes de partir para uma aventura no Rio de Janeiro. Foi redator no "Diário da Noite", mas não ganhava o suficiente para se manter na cidade. Voltou para Minas e trabalhou em periódicos de Belo Horizonte. Eram os tempos de efervescência do presidente Juscelino Kubitschek. Em BH, o "Binômio", publicação em que trabalhava, desancava com políticos em geral, não poupando nem mesmo o presidente conterrâneo. Em nova tentativa no Rio de Janeiro, consegue emprego no "Jornal do Brasil", que se firmava como um dos grandes diários brasileiros. Ao lado do jornalismo, mantém-se próximo da militância ao atuar em sindicato da categoria. Aos anos JK, seguem o fiasco doidivanas de Jânio Quadros, o claudicante período de João Goulart e o golpe militar de 1964. Gabeira confessa a ingenuidade dos que como ele acreditavam na resistência democrática. O país vai amargar duas décadas de ditadura. O jornalista abandona o emprego no JB para ingressar na clandestinidade. Integra grupo de extrema-esquerda. Com o AI-5, em dezembro de 1968, a ditadura escancara sua face mais tenebrosa, o das prisões ilegais, tortura e sumiço de desafetos. Gabeira participa do sequestro do embaixador dos Estados Unidos, trocado depois por presos políticos. Preso e baleado em São Paulo, Gabeira transita entre hospitais militares, celas e salas de tortura, antes de ser exilado. Passou pela Argélia, França, Suécia, Alemanha e Chile. Na Europa, entra em contato com a questão do meio ambiente, pauta definitiva de sua atuação daí por diante. Reconhece inúmeros erros e vacilos da esquerda tradicional, pouco afeita a autocríticas.

O livro mantém espaço para as situações bem humoradas, como a despirocada conversa do jornalista com Glauber Rocha. O cineasta confessa seu desejo de filmar ação real de grupo armado, e Gabeira contrapõe, alegando que o resultado final poderia sair mambembe e seria um "suicídio estético" do artista. O diretor toma a afirmação por literal, e que Gabeira teria proposto que Glauber se matasse.

Na volta do exílio, uma de suas entrevistas abalou geral, desagradou à direita e à esquerda ao sentenciar que não esperaria "a revolução para ter um orgasmo". Falar de sexualidade era tabu inadmissível para quaisquer cores do espectro político. Nas redes sociais de hoje, seria lacrado e atirado para queimar na fogueira virtual dos párias e proscritos. Escreve "O que é isso, companheiro?", best-seller que retrata seu período na clandestinidade. O livro, traduzido em diversos idiomas, ganhou versão para o cinema. Publica uma sequência de sucessos: "Crepúsculo do macho", "Entradas e bandeiras", "Hóspede da utopia". Percorre o Brasil de ponta a ponta. Volta ao jornalismo. Na política, é um dos fundadores do Partido Verde. Outra boa história é sua "quase candidatura" à vice-presidente na chapa de Lula, em 1988, na primeira eleição pós-ditadura. Acabou preterido. Mais adiante, elege-se deputado federal, em quatro legislaturas seguidas, de 1995 a 2011. Deixa a política partidária e não disputa uma quinta reeleição. Acompanhar no livro sua trajetória em Brasília, suas pautas, acertos e tropeços é bom para rever a cena política brasileira do período.

Nos dias que correm, o jornalista mantém coluna de opinião num grande jornal carioca, além de participação em programa de rádio e outro de reportagem na TV por assinatura.

FERNANDO BANDINI é professor de Literatura do Ensino Médio


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