Opinião

Adeus, senhor Tibbs

Sabia que não tínhamos conquistado nada, porque eu ainda era o único ali


Alexandre Martins
Rafael Amaral
Crédito: Alexandre Martins

Nos mais diferentes sites e jornais, na semana passada, a notícia da morte de Sidney Poitier veio seguida pela seguinte informação: "o primeiro ator negro ganhador do Oscar". É verdade. O feito ocorreu em 1964, graças à sua inspirada atuação em "Uma Voz nas Sombras". Ele foi também o primeiro afro-americano a ser indicado na mesma categoria, em 1959, por "Acorrentados", outra grande interpretação.

O que muita gente não sabe é que a vitória não empolgava Poitier e, no fundo, não mudaria muita coisa nos tumultuados anos 1960. "Poitier sabia que tudo isso era bobagem. Tinha a exata noção de que, muito embora a imagem de um homem negro recebendo um Oscar fosse emocionar muitos norte-americanos de todas as etnias, sua vitória seria usada para vender uma mentira, a falsa ideia de que a indústria do cinema havia resolvido seus problemas raciais e mostrava o caminho a seguir pelo restante das instituições do país", observa o jornalista Mark Harris em "Cenas de uma Revolução" (Editora L&PM).

Uma fala de Poitier destacada no mesmo livro dá uma ideia da situação: "eu sabia que não tínhamos conquistado nada, porque eu ainda era o único ali". O episódio de Little Rock Central High School ocorreu anos antes, em 1957. As marchas de Selma a Montgomery estourariam em 1965. No Sul dos Estados Unidos, filmes sobre causas raciais eram recusados em muitos cinemas. Poitier sabia que o caminho a trilhar ainda era longo.

Mais que ganhar um Oscar, o maior feito de Poitier foi se posicionar em uma indústria majoritariamente branca, na qual, até os anos 1950, ou até Poitier, negros eram legados a papéis coadjuvantes e aos esteriótipos de sempre. Nos faroestes clássicos, era comum um ator negro desempenhar o papel do seguidor abobado ou do criado da casa grande.

As portas começaram a se abrir para Poitier em 1950, com "O Ódio é Cego", no qual vive um médico que tem de cuidar de dois homens brancos racistas. Pouco depois, em "Sementes de Violência", interpreta o aluno de uma escola cheia de desregrados sociais, com o professor Glenn Ford de cara com a nova América de jovens de jaqueta de couro, gel no cabelo, ao som do rock'n'roll, tempos de James Dean e Marlon
Brando.

Com o diretor Stanley Kramer, conquista definitivamente o estrelato: "Acorrentados", sobre dois prisioneiros presos a uma corrente, opõe o branco ao negro e mostra como as diferenças se anulam à medida que duas pessoas precisam se unir para sobreviver. Mais tarde, Kramer escalaria Poitier para o premiado "Adivinhe quem vem para Jantar".

Em "Tormentos D'Alma", de 1961, interpreta um psiquiatra que tem de atender um neonazista. Em "Uma Voz nas Sombras", que lhe rendeu a estatueta dourada, faz uma espécie de anjo que aterriza - ou tropeça - em um grupo de freiras que desejam construir uma capela no meio do deserto. Anos depois, em 1967, tem seus maiores sucessos de público.

Em "Ao Mestre, com Carinho", passa à posição de professor em uma escola de jovens desajustados - à posição antes ocupada por Glenn Ford, dessa vez em Londres. Mas é na pele do policial Virgil Tibbs, em "No Calor da Noite", que o ator encontra seu maior personagem nas telas - e que retornaria em mais dois filmes.

A frase mais famosa dessa produção dirigida por Norman Jewison é também uma das mais famosas do cinema: "Eles me chamam de senhor Tibbs!". Sim, às autoridades e aos ignorantes de uma pequena cidade sulista, chamar um homem negro de "senhor" seria pedir demais. Tibbs, retido por acidente na estação de trem, não só é suspeito de um crime - por ser negro, claro - como também ali se instalada para esclarecer o caso.

"No Calor da Noite" venceu o Oscar de melhor filme do ano. Seu protagonismo é dividido entre Poitier e o grande Rod Steiger, no papel do delegado que pouco a pouco percebe o tamanho do homem ao seu lado e suas qualidades como investigador. Duas grandes interpretações em tela. Steiger ficou com o Oscar de melhor ator. Poitier sequer foi indicado, prova de que a Academia ainda não havia aprendido muita coisa.

RAFAEL AMARAL é crítico de cinema e jornalista; escreve em palavrasdecinema.com


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