Opinião

Quem confia em quem?

Vive-se um desalento melancólico, uma decepção que desmotiva


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Jose Renato Nalini
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Como explicar a gravidade da policrise brasileira? A crise econômica, por sua duração, nem pode mais ser chamada crise. Pois crise tem de ser passageira. Quando a situação se prolonga no tempo, isso é um fenômeno mais sério.

Pois o Brasil já não vinha bem das pernas havia muito. Indústria sucateada, falta de visão do governo, uma sociedade puerilizada e dependente do Estado. Consequência da falta de educação. O que se propicia nas escolas estatais brasileiras não é educação: é uma estratégia de memorização de informações desatualizadas. Algo inteiramente superado com o advento das TICs. As tecnologias da informação e da comunicação propiciam acesso imediato ao mundo virtual, que mantém atualizado o seu acervo informacional e o reveste de colorido, movimento e som, realidade com a qual não podem competir as repetitivas aulas dos maltratados professores.

Mas veio também a crise ética, logo a deságuar em crise moral. Falta de compostura daqueles que estão "no alto". E se os de cima claudicam, os de baixo seguem a manada. O efeito boiada, no pior sentido, manifesta-se num despudor angustiante. Poucas nações chafurdam em lama - corrupção, falcatruas, conchavos, negociatas e motociatas, corporativismo deslavado etc. etc. - tão imunda como nossa Pátria.

Todas as promessas de edificação de uma Pátria justa, fraterna e solidária, explicitadas pelo constituinte de 1988 a partir do preâmbulo da Constituição Cidadã, longe de se concretizarem, fugiram ao largo. Vive-se um desalento melancólico, uma decepção que desmotiva os raríssimos patriotas que ainda pretendem salvar o Brasil.

Para culminar, veio a pandemia. O mundo inteiro sofreu com ela. Mas o Brasil muito mais. Aqui, houve o negacionismo; a hostilidade às vacinas, numa infeliz ressurreição daquilo que o povo já sentira em 1918, com a "revolta da vacina". Ignorância brotou como capim e correu muitas mentalidades, assim como a saúva faz com nossa plantação.

2022 é o ano em que o Brasil deveria acertar contas com o seu passado, pensando no amanhã de nossas crianças e nas gerações que ainda virão, se sobrar oxigênio depois do extermínio da Floresta Amazônica e demais biomas cruelmente devastados por ordem, cumplicidade e conivência governamental.

A crise brasileira agora é a crise da desconfiança. Sem confiança, o oxigênio de qualquer sociedade, no dizer do historiador Rutger Bregman, uma nação não caminha. Apenas retrocede, o que se verifica em tantos aspectos desta República.

O escritor holandês Rutger Bregman sustenta que devemos encarar de outra forma a humanidade. O seu livro "Humanidade: uma história otimista do homem", publicado no Brasil pela Editora Crítica, é um libelo a favor de uma nova mentalidade no convívio entre as pessoas.

Para ele, a cooperação e a confiança constituem características inatas ao "homo sapiens". Esta criatura racional "nasce para aprender, se relacionar e interagir". É disso que se nutre o avanço ético, a solidariedade e a construção de um convívio saudável. Interessante que Rutger considera o "corar" um signo expressivo dessa condição humana.

Aquele repentino rubor que se verifica nas faces que guardaram o pundonor - quem conhecia esta palavra? - é a demonstração de que os humanos se importam com o que outras pessoas pensam. É o que alimenta a confiança e a socialização.

Baseado numa pesquisa realizada por sociólogos do World Value Survey todos os anos, desde 1950, o holandês constatou que não existe outro país do planeta com menor número de pessoas que confiam umas nas outras do que o Brasil. Só 5% dos brasileiros afirmam confiar em alguém. Enquanto que na Noruega, os que confiam chegam a 70%.

Isso explica a situação em que chegamos e também a falta de envolvimento da juventude com a política. E Rutger oferece uma explicação instigante: "A confiança é o oxigênio da sociedade, confiar faz tudo funcionar melhor. Se você não tem confiança, você tem burocracia, mais advogados". Parece conhecer a condição brasileira de possuir, em seu território, mais faculdades do que a soma de todas as outras existentes no restante do planeta. E você? Confia em quem? Em quem vai confiar seu voto no próximo outubro?

JOSÉ RENATO NALINI é reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras - 2021-2022


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