Opinião

Personagens folclóricos

"Quando vencer o cheque, você vai lá e deposita a vaca e vê se o Banco aceita"


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GUARACI ALVARENGA
Crédito: divulgação

Era nesta época do ano, próxima dos festejos carnavalescos, que duas personagens, pertencentes ao mundo da fantasia, dupla que suspirava por aventuras e emoções, conquistavam com suas artimanhas toda a harmonia dos seus temperamentos com as circunstâncias.

Um destes notáveis citados, foi o saudoso João Carnavalesco. Pessoa amável e agradável, não tinha inimizades. Era um artista na criação. Emprestava seu talento na feitura de comidas, nas decorações carnavalescas, nas campanhas eleitorais e, nas "horas vagas", fazia qualquer negócio para se manter com alguns trocados no bolso da calça. Seduzia até para anunciar o endereço de seu escritório: "Localizado entre as ruas do Rosário e Barão de Jundiaí, podendo facilmente ser encontrado na Praça da Matriz". Numa oportunidade, um grande companheiro seu, na boa intenção de ajudá-lo, comprou vários pares de sapato, de uma liquidação de uma grande loja da cidade, com cheque pré-datado, para 90 dias. Bastava vender os pares com algum lucro e já teria algum dinheiro de sobra para resgatar o cheque. Criou uma ideia melhor. Trocou os pares de sapato por um animal, uma vaca. Comunicou o fato ao emitente do cheque. A resposta foi de imediato: "Quando vencer o cheque, você vai lá e deposita a vaca e vê se o Banco aceita." Em outra, sempre foi amigo de um conhecido comerciante de bebidas da cidade. Desejava tomar um empréstimo em dinheiro com a garantia de um cheque de sua própria emissão, no valor de R$ 1.000,00. O cheque foi devolvido. Guardou-se o cheque. Passado algum tempo, o bom carnavalesco o procurou outra vez. Trazia agora um valioso colar de ouro, preço de ocasião, R$ 2.000,00. Proposta aceita. O comerciante deu-lhe em dinheiro a quantia de R$ 1.000,00 e quanto ao restante foi-lhe entregue o cheque devolvido. "Epa, este cheque é meu e não vale! E ganhou mais uma.

O outro personagem sempre foi um divertido folião. A sua veste preferida: o malandro sofisticado. Sexta de Carnaval. Pensou nos gastos que iria ter e nas dívidas que já vinham atrás. Saiu de casa. Cruzou o agitado Centro da cidade. Passou em frente a Catedral, fez o sinal da cruz. Chegou no conhecido ponto de caminhões no escadão, na J.J. Rodrigues. Cortês, cumprimentou o motorista com um aperto de mão. Mandou tocar para São Paulo. Na grande Capital, logo avistou um comércio de ferro-velho. Mostrando experiência no negócio, perguntou pelo preço da sucata: "cinco reais, meu patrão, preço de ocasião", respondeu o vendedor. Portou-se como bom comprador, não pechinchou no preço. Determinou carregar o caminhão. Carregamento feito emitiu um cheque cruzado para depósito na segunda. Voltou-se para o motorista e mandou tocar para o interior. No trevo de Americana decidiu pela cidade. Logo avistou um depósito de ferro-velho. Ofereceu a carga. O preço máximo que conseguiu: três reais o quilo. Não teve dúvidas: "descarregue a sucata". O bom motorista do caminhão ficou sem entender nada. Achegou-se dele e disse em voz baixa: "o senhor está perdendo dinheiro, comprou por cinco e está vendendo por três reais o quilo da sucata., é prejuízo certo!" O conhecido folião não se embaraçou: "sossega meu bom rapaz. Quem está perdendo dinheiro não sou eu, mas quem recebeu o meu cheque... lá atrás". Retornaram. Hora de acertar o preço do carreto. "Quanto é o serviço, meu bom motorista?" "É duzentos reais pelas duas viagens." Retirou o talão de cheques do bolso. O motorista, neste instante, suou frio e não se conteve: "Pelo amor de Deus, o doutor não vai me pagar com cheque, eu tenho família para sustentar!!!"

O que me sensibiliza no estilo de vida destes saudosos personagens folclóricos da cidade é a maneira graciosa com que os seus amigos os toleravam e permaneciam ainda mais solidários com esta convivência. São casos vividos, que rendem reflexões. Casos que se confundem com as lendas destes personagens. Todas elas envoltas em carismas e grandes amizades, mas acima de tudo, de uma humanidade, que não se encontra mais, nos tempos atuais.

GUARACI ALVARENGA é advogado


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