Opinião

Que planos você tem?

Respirava-se um cheiro de morte, destino e perversidade


Alexandre Martins
Anna Fossen
Crédito: Alexandre Martins

É uma enorme responsabilidade depois de um período como 2021 escrever um texto logo nos primeiros dias do novo ano.

Antes de mais nada, que 2022 seja um ano leve para todos, ainda que 2021 tenha deixado um rescaldo a que devemos ficar atentos.

Depois de uma vivência inédita de paralisação e isolamento, no final do ano de 2020, podíamos observar uma esperança, um tanto eufórica e irreal, de que a pandemia havia apresentado seu fim e que no ano vindouro o tão anunciado "novo normal" nos encontraria com suas novidades. Os discursos que podíamos escutar envolviam esse bom augúrio, ainda que desconfiado, de que novos planos poderiam ser traçados. A promessa de uma vacina nos permitiu voltar a sonhar com viagens, universidade, amores, planificações que se avizinhavam sorrateiras no horizonte de alguns, pelo menos, dos pouco eufóricos, não enlutados pelas vítimas da primeira onda e para os não negacionistas. Havia um clima de esperança no ar.

Mal sabíamos que logo no início de março viveríamos dias aterrorizantes, que criaram vítimas e sequelas com as quais conviveremos por muito tempo. Esperávamos mais de 2021, mais suavidade e o restabelecimento de certas ordens e rotinas. Também nunca imaginaríamos que a canalhice da política brasileira fosse colocar esse ponto de esperança nos seus poços de lama. Será impossível esquecer os esforços realizados por muitos para que a vacinação no nosso país não acontecesse. Respirava-se um cheiro de morte, destino e perversidade. O primeiro semestre de 2021 fez um ponto de inflexão nos causando exaustão emocional, medo e surpresa. Ressoavam perguntas sobre os absurdos dos ataques contra à saúde e à ciência.

A que ponto chegamos?

Ao ameaçar não oferecer -ou ainda, fazê-lo de forma cínica- a vacina, fomos levados ao momento de duvidarmos de uma característica bastante elogiada pelos poetas e compositores sobre os brasileiros: a capacidade de seguir esperançosos e de não desistir, ainda que a realidade sempre tivesse se mostrasse desfavorável.

Viemos nos arrastando pesarosos. As frases mais ouvidas se referiam à tristeza e à exaustão. Para a surpresa de todos deixamos de fazer planos, na medida em que, a perversidade que nos foi aplicada nos exauriu, nos calou a alma de forma mortífera. Deixamos de ouvir neste final de ano as previsões divertidas, os médiuns fantásticos que diziam que o Brasil e o mundo iriam fazer e acontecer. Exaustos, impactados, desesperançados.

Portanto, meu convite a todos é que tiremos de nossas veias mais profundas a habilidade de voltar a criar planos, perspectivas, ainda que sejam aqueles considerados pequenos como fazer uma horta num vaso na sacada. Não ouçam neste chamamento um otimismo patológico do tipo entranhado nas teorias do pensamento positivo. Criar planos e reaver nossas esperanças exigirá raciocínio, temperança e trabalho. Não há sorte, nem milagres, há dedicação e posicionamento. O período de 2020 e 2021 não foi de aprendizado como querem exortar os minimalistas, foi um solavanco, um chute muito bem dado em nossos traseiros. Talvez, também, não deveríamos mais perder tempo em descobrir se foi Deus quem quis, se a Natureza nos castigou, se o diabo estava envolvido ou se foi a transição dos astros e planetas que nos trouxeram até aqui. As coisas aconteceram, pessoas morreram, famílias se desfizeram, empresas faliram em massa. O que vamos fazer com tudo isso? O que queremos fazer com isso?

Não gostaria que essas questões fossem interpretadas como gritos de guerra ou como um lema caótico sobre a liberdade de ação. Somos seres da cultura e esta é a criação menos livre da Humanidade.

O ano de 2022 nos espera e não somos nós que devemos esperar algo dele, devemos construí-lo, como pudermos, com o que tivermos de recursos.

E então, que planos você tem?

ANA CLÁUDIA FOSSEN é psicóloga e psicanalista, graduada em Psicologia pela USP e pós-graduada em Psicologia e Filosofia pela Universidade Complutense de Madri-Espanha


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