Opinião

Será que sou um avô ativo?

O êxito das gerações futuras passa pelos avós, ativos, que convivem com os netos


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Jose Renato Nalini
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Dos meus avós, lembro-me com carinho da avó materna, Anna Rodrigues Barbosa. Eu fui o primeiro neto e ela abusou do mimo. Carinhosa, terna, protetora. Ao falecer, antes dos sessenta, eu tinha dezoito anos. Não avaliava, ainda, o que perdera. Hoje ela aparece nos meus sonhos. Há uma insistência neles: tenho de visitá-la. Mas é a certeza que não se concretiza. Acabo não estando com ela.

Hoje sou avô de oito netos. Maria Antonia, a primeira, vai completar quinze anos. Antonio Carlos fez treze. Lara vai fazer treze comigo, na véspera de Natal. Bento fez nove. Ella tem oito e Maria Rosa logo também terá. Sofia está com cinco e o caçulinha Theo acabou de fazer dois aninhos.

Tenho tido o privilégio de conviver com todos eles, senão com a permanência da presença física, ao menos com o uso contínuo do mundo web. Crianças hoje têm celular e sabem usar Instagram e WhatsApp. Meio de comunicação que nos torna presentes, embora à distância.

Mas também é comum o comparecimento aos encontros familiares. São oito aniversários só dos netos. Mais os dos filhos, genro e nora, dos avós, dos tios-avós e dos primos. Haja celebração. O bom é que eles estão crescendo amigos. Vejo famílias se decompondo por causa de patrimônio. O nosso patrimônio é a união de todos, a solidariedade fraterna, o carinho que também sobra para agregados.

Escrevo isto pensando na teoria que é chamada "hipótese dos avós ativos". Partiu da constatação de que, nos primórdios de nossa história, os caçadores-coletores que sobreviviam forneciam recursos extras e socorro aos netos. Foi o que ajudou os descendentes a sobreviver.

O êxito das gerações futuras passa pelos avós. Avós ativos, que convivem com seus netos, que ajudam na educação. Sem o pieguismo do "neto é filho com açúcar". Há todo um conhecimento adquirido pelos avós que só o são, porque foram pais. Sem essa do "pai educa, avô deseduca". Há padrões familiares que são mantidos. E que devem ser preservados.

Uma das alegrias recentes foi ouvir de meu filho primogênito, após aquela série de "por quês" de sua filha, ante uma ordem sua. O último argumento que ele utilizou foi: "Porque foi assim que meu pai me ensinou e deu certo!". Isso é mais valioso do que qualquer diploma.

Falei de minha avó Anna, que todos chamavam "Nhana" ou "Doninhana", o linguajar da primeira metade do século passado. Ela faleceu antes dos sessenta e, para nós seus netos, era uma velhinha. Caminho rapidamente para os oitenta, e me considero ainda "inteirão".

A atividade física tem permitido que se viva mais e melhor. Isso é atávico. Os primeiros humanos eram obrigados a se movimentar para caçar comida e os que se moviam mais rápido, eram os que encontravam mais comida e assim sobreviviam melhor. O exercício é bom para o corpo e para a mente. Existem os avós que se exercitam por diletantismo, porque gostam de estar em boas condições de saúde e aqueles que se exercitam porque precisam. Quantos avós brasileiros não sustentam seus netos? Nesse grupo estão os que sofreram a perda irreparável da pré-morte de seus filhos. A dolorosa inversão da natureza, que nem nome tem, de tão cruel.

Mas também os avós que são os sustentáculos da prole, com seus minguados proventos de aposentadoria. Quantos pais desempregados não dependem de pensões para criar seus filhos?

Tenho de agradecer à Providência o quão magnânima foi para com minha família. Sou um avô que curte seus netos. E acho que eles até gostam de mim...

José Renato Nalini é Reitor da UNIREGISTRAL, docente da Pós-graduação da UNINOVE e Presidente da ACADEMIA PAULISTA DE LETRAS - 2021-2022.


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