Opinião

DiCaprio tem meu respeito

Ator pediu para adolescentes tirarem o título; não pediu para votarem em A ou B


Alexandre Martins
Rafael Amaral
Crédito: Alexandre Martins

Um astro como Leonardo DiCaprio poderia estar preocupado com muitas outras coisas e absolutamente nada. Por que alguém como ele - tão famoso, com a conta bancária cheia, à sombra de um coqueiro em alguma ilha paradisíaca - estaria preocupado com o Brasil? DiCaprio tem consciência social e sabe o quanto o impacto de uma política desastrosa em um vizinho "ao sul da fronteira" pode trazer consequências ao mundo todo.

O ator pediu para que os adolescentes brasileiros tirassem o título de eleitor antes de o prazo ser encerrado, no último 4 de maio. Não pediu que votassem em candidato A ou B. Apenas nos lembrou a importância do exercício da cidadania - ainda que, para ele, o voto obrigatório deva parecer algo um tanto anacrônico.

DiCaprio tem meu respeito como artista e como homem. Todos nós, sabe o protagonista de "Titanic", somos, em algum grau, seres políticos. E a arte não se desprega da política em seu sentido mais amplo (ou profundo): por seus traços, sempre revelamos nossas posições e mesmo as contradições, também as ignorâncias e as bolhas em que nos metemos.

Quando alguém como DiCaprio olha para o Brasil e entende a importância dos jovens fazerem a diferença, recomenda-se também olhar para ele e observar suas escolhas passadas. Sei pouco de sua vida pessoal. A filmografia conheço mais. Com três décadas de carreira, o ator já pode se gabar de pelo menos meia dúzia de filmes valiosos.

"Gilbert Grape: Aprendiz de Sonhador" revelou o talento precoce. "Romeu e Julieta" e "Titanic", o rostinho bonito da vez. "A Praia", um ator disposto a arriscar. "Gangues de Nova York", um astro atrás de um grande diretor, a saber, Martin Scorsese - de quem virou, para nossa sorte, colaborador habitual. "O Aviador", a segunda parceria com o cineasta, provaria definitivamente sua capacidade de se transformar. Não era apenas um rosto bonito.

Outros grandes filmes com Scorsese viriam na sequência. "O Lobo de Wall Street" é talvez o melhor da parceria. É o golpe de DiCaprio e do cineasta no sistema financeiro americano, na propaganda de que a riqueza está à altura de todos enquanto alguns tubarões do cassino global vendem títulos podres e se tornam milionários praticando falcatruas. Como Jordan Belfort, o ator brinda-nos com uma atuação assombrosa, em momentos à beira do grotesco, em outros do trágico, enérgico na medida certa.

Pouco antes, em "Django Livre", ele interpretou um senhor de escravos com algum grau de psicopatia. A imagem de seu riso com uma taça na mão se tornou meme obrigatório em conversas de WhatsApp: é a face do escracho, a graça de quem não dá a mínima para os outros - desde que não mexam no seu dinheiro, no seu poder e, neste caso, nos seus escravos. DiCaprio incorpora homens desprezíveis que, no passado e no presente, refletem-se.

No recente "Não Olhe para Cima", ele é um dos cientistas que descobre um meteoro em rota de colisão com a Terra. A catástrofe pode levar à extinção da nossa espécie. Nesses tempos de lacração e pós-verdade, nos quais o espetáculo suplantou o fator humano, a certa altura ele perde a linha e grita para nos alertar: um meteoro está chegando, não adianta negar o óbvio. O mesmo faz por nós, brasileiros: é hora de exercer a cidadania, é hora de votar.

Rafael Amaral é crítico de cinema e jornalista; escreve em palavrasdecinema.com


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