Opinião

De lá para cá

Quando flores brotam no tecido pelos bordados dela, constata-se que é vitoriosa


 Arquivo pessoal
Cristina Castilho
Crédito: Arquivo pessoal

Quando chega à Casa da Fonte, projeto Socioeducacional idealizado e mantido pela Companhia Saneamento de Jundiaí - CSJ, para aula de artesanato, é sempre festa no seu abraço forte e carinhoso.

Conheço-a desde a década de 90 e se fez posseira no meu coração.

Semana passada, comentou que é incrível como Deus protege sua vida e vieram memórias suas de menina.

Fugiu de casa várias vezes, na adolescência, para São Paulo, capital. Deslocava-se de carona, de onde morava, uma média de 350 km.

Quando ficou mais tempo desaparecida, na década de 60, viajava, durante o dia, de trem até Paranapiacaba. O trem que ia e voltava era seu "dormitório". À noite, ficava pelas ruas de um dos bairros centrais.

Contou sobre as duas vezes que fora presa: uma, pelo que se recorda - sem exatidão -, no Posto de assistência policial do Brás, mais tarde Presídio do Hipódromo. Segundo comentário na página do Facebook: "Memória da Polícia Civil de SP', as celas eram dispostas de tal forma, que não havia privacidade.

O Presídio do Hipódromo, de acordo com o Memorial da Resistência de São Paulo, também conhecido por "Depósito de Presos", fecharam diversas vezes por ser inadequado. Utilizado também para a detenção de prostituídas e travestis e, durante a ditadura, recebeu oponentes políticos enviados em maior número a partir de 1972, com a desativação do presídio Tiradentes. Ficavam separados dos presos comuns, mas ambos viviam em péssimas instalações: superlotação, falta de assistência médica, banho de sol restrito, castigos. Apesar da precariedade, desativaram apenas em 1995.

O motivo do encarceramento dela, por alguns dias, era pelo fato de, com seus treze anos, andar pelas ruas e não possuir carteira profissional assinada.

Nessa época, uma moça lhe disse que iria levá-la a um lugar. Aceitou. Estava sempre em busca. Conduziu-a a uma casa perdida em um lugar ermo. Andaram muito até chegar no local. Uma casa muito suja, parecia abandonada, com um sofá, no qual estava um homem idoso. Teve uma sensação de repulsa. A moça lhe disse que sentasse ao lado do indivíduo. Olhando ao redor, as paredes, o chão, concluiu que não deveria ser moradia, mas um local para encontros clandestinos. O homem não lhe disse nada, mas começou alisar sua perna. Deduziu que se encontrava diante de um pedófilo e que ele iria matá-la após saciar seu apetite de carne infantojuvenil. Coisas da intuição aguçada e isso ela possui. Saiu em disparada pela noite. Correu demais até que encontrou casas iluminadas de um bairro com o comércio aberto. Parou e o sono a possuiu. Acordou, na manhã seguinte, na casa de uma senhora desconhecida. Falou-lhe que desmaiara. Até hoje acredita que, na verdade, passado o temor - não é de sentir medo - adormeceu. Contou o que acontecera. Entraram em contato com a família e o pai veio lhe buscar.

Esse é um dos fatos que a faz agradecer a proteção de Deus. Sua vida poderia ter se encerrado naquela habitação suspeita e macabra.

Ao lhe perguntar sobre o que sonhava naquela época, contou-me que era: arranjar emprego com salário bom, ficar rica e, um dia, chegar em sua casa de táxi preto, para mostrar que, apesar de seus desencontros, vencera.

Quando flores brotam no tecido pelos bordados dela, constata-se o quanto é vitoriosa.

Maria Cristina Castilho de Andrade é professora e cronista


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