Opinião

Mudanças climáticas e coincidências

A chegada de frente fria abrupta gera crise de dor articular em quem tem artrose


Alexandre Martins
Alexandre Martin
Crédito: Alexandre Martins

No meio do ensino médico existe uma "lei" que raramente aparece nos livros da área, mas que é passada oralmente para os estudantes, quando começam a trabalhar nos primeiros plantões médicos da sua carreira. Refiro-me à "lei" de Velpeau (pronuncia-se Velpô), nomeada em homenagem ao médico, anatomista e cirurgião francês que supostamente a enunciou, falando que "doenças raras vêm aos pares". O que significa isso?

Lembro-me quando tive contato com ela pela primeira vez, dentro da minha escola médica. Nós éramos seis estudantes, cada qual em sua "sala", atendendo ao mesmo tempo, e já trabalhávamos na linha de frente do pronto-atendimento há algum tempo. De repente surgiu um paciente com queixa de dor no ouvido. Depois de um rápido exame, concluí que era uma infecção do ouvido médio, o que chamamos de "otite".

Dei-me conta que, mesmo depois de um bom tempo naquele setor de atendimento, aquela era a primeira otite que identificava. Antes de concluir o atendimento, fui chamar os outros colegas estudantes para mostrar-lhes o exame, já que se tratava da primeira diagnosticada. Qual foi a minha surpresa, ao sair da sala, em encontrar o meu colega, que estava no corredor nos chamando para ver no paciente que ele atendia naquele momento uma… otite.

Na sequência outro colega sai da sala comentando que poderíamos ver o exame do ouvido do paciente dele, já que ele apresentava… otite.

A patologia que não víamos há tempos chegava agora aos grupos. Até o fim do dia, foram várias otites para cada um de nós, se bem me lembro. Este é o fenômeno. Existem algumas tentativas de explicar, utilizando as ondas de infecção de vírus e bactérias, mas a lei de Velpeau se aplica a diagnósticos de doenças auto-imunes e genéticas também, de forma que se trata de fato observável, mas não é completamente explicado.

O fenômeno é conhecido dos antigos médicos chineses, que desenvolveram e trabalharam com a medicina tradicional chinesa (MTC) na antiguidade. A explicação que eles apresentavam é que o ser humano não está isolado do ambiente onde vive.

Com a mudança das estações do ano, é esperada a mudança lenta e gradativa da energia regente do meio ambiente. Por isso são feitas recomendações de alimentação de hábitos de vida que mudavam conforme mudavam estações do ano. Dessa forma, os alimentos do inverno não são compatíveis com um clima de verão.

Ocasionalmente energias diferentes da estação surgem, como de surpresa. Elas eram chamadas energias climáticas "visitantes", pois não eram características daquela época, estavam só de passagem. Seria algo como as nossas "frentes frias" ou "secas" que modificam vento, umidade e temperatura de maneira abrupta.

Nessas épocas, em indivíduos que possuíam energias dentro do seu corpo que eram "ressonantes" com as visitantes, teriam suas doenças pioradas ou despertariam crises nelas.

Exemplo típico é a chegada de uma frente fria, abrupta, gerando crise de dor articular em quem possui algum grau de artrose. Alguns, mais sensíveis, chegam a sentir uma piora antes mesmo da mudança de tempo chegar a acontecer. Brincamos que fazem a "previsão do tempo".

A partir daí, a MTC desenvolve tratamentos para eliminar essas energias residuais do corpo energético, para que as energias visitantes não gerem mais incômodo aos pacientes.

ALEXANDRE MARTIN é médico formado pela Unicamp e especialista em Acupuntura e Osteopatia


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