Opinião

Lei Áurea

A homenagem de hoje não paga toda a dívida que nosso País tem com esta gente


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GUARACI ALVARENGA
Crédito: divulgação

A Lei Áurea (Lei nº 3.353) foi sancionada pela Princesa Dona Isabel, filha de Dom Pedro II, no dia 13 de maio de 1888.A lei concedeu liberdade total aos escravos que ainda existiam no Brasil, um pouco mais de 700 mil, abolindo a escravidão no país. A sanção dessa lei resultou numa vitória dos conservadores, que aboliram escravidão sem pagar indenização aos fazendeiros. Para a família imperial, consistiu na perda de apoio político e, para os escravos, a liberdade, ainda que sem integração social.

A homenagem que se presta no dia de hoje, é talvez a mais justa, na dedicação à reflexão sobre a inserção do negro na sociedade brasileira. Não só pela forte contribuição na formação étnica de nosso povo, como também pela grande influência cultural, arragaida em todos os seus segmentos.

Tenho lido as diversas manifestações sobre as merecidas festividades. Muitas ainda escapam da nossa compreensão, por não se entender a saga heroica desta raça, pelo sagrado solo brasileiro. Houve um poeta, que pela sua obra, sensível ao grave problema social de seu tempo, ousou denunciar, veemente a crueldade da escravidão. Não. Não era negro. Mas sentia a alma negra em todos os seus sentimentos. Jovem, culto, garboso, jamais se influenciou pela fidalguia sem fé.

Castro Alves, poeta baiano, estudante de direito do histórico Largo de São Francisco, fez em versos, o mais famoso poema abolicionista de seu tempo. Retratou em suas palavras condoreiras, a verdade escondida na infâmia e covardia de muitos seres humanos. Em " O Navio Negreiro", sua obra imortal, escrita há mais de 140 anos, podemos sentir toda a saga deste povo sofrido, angustiado e escravizado.

O poeta começa falando do mar e do oceano:

Estamos em pleno mar.

Dois infinitos ali se estreitam num abraço insano

Azuis, dourados, plácidos e sublimes...

Qual dos dois é o céu? Qual o oceano?

Bem feliz que aí pode nesta hora

Sentir deste painel a majestade!

Embaixo - o mar.

Em cima - o firmamento

E no mar e no céu - a imensidade.

Fala do insensível capitão do navio:

No entanto o capitão manda a a manobra

E após fitando o céu que se desdobra tão puro sobre o mar:

"Vibrai rijo o chicote, marinheiros!

Fazei-os mais dançar.

Clama então aos céus:

Senhor Deus dos Desgraçados

Dizei-me vós, Senhor Deus

Se é loucura... se é verdade

Tão horror perante os céus?

Narra a covardia dos traficantes de escravos, usando a bandeira do Brasil:

Existe um povo que a bandeira empresta

Pra cobrir tanta infâmia e covardia.

Auri verde pendão da minha terra que a brisa do Brasil beija e balança

Estandarte que a luz do sol encerra

As promessas divinas da esperança

Tu que dá liberdade após a guerra

Foste hasteada por heróis em lança

Antes tivesse rota na batalha

Do que servires a um povo de mortalha

E finaliza clamando aos heróis do novo mundo:

Mas é infâmia demais..

Da etérea plaga, levantai-vos heróis do novo mundo.

Andrada! Arranca este pendão dos ares!

Colombo! Fecha as porta dos teus mares!

Sim, Talvez a homenagem que se presta no dia de hoje, não pague toda a dívida que nosso País tem com esta gente. As flores do reconhecimento, muito provavelmente, estão chegando tarde. Mas para todos nós, que acreditamos em Deus, jamais serão seres humanos diferentes. Esta sim, a indiferença, é a mais cruel das ingratidões.

GUARACI ALVARENGA é advogado.


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