Opinião

A mentira que nossos olhos nos contam

luz é algo que faz a gente enxergar outro algo; é uma forma de perturbação


Alexandre Martins
Elisa Carlos
Crédito: Alexandre Martins

Dia 16 de maio, recebi um convite para uma visita virtual ao acelerador de partículas Sirius, em comemoração ao dia internacional da Luz. Confesso que quando li rapidamente, imaginei algo místico. Não obstante, estava sendo comemorado o dia em que os Budistas Theravadas acreditam que Buda se iluminou. O dia de uma evidente dualidade ciência x espiritualidade, foi coroado por uma autêntica lua Wesak, com direito a eclipse lunar total. Comemoramos que o que se enxerga à luz da ciência e da espiritualidade é a clareza de que a realidade como percebemos é turva.

Na explicação da pesquisadora que conduz a visita, diz-se aquele óbvio que precisa ser dito: luz é algo que faz a gente enxergar outro algo. É uma forma de perturbação que nos permite perceber a realidade. Especificamente, um acelerador de partículas é uma ferramenta que gera luz síncrotron, uma onda de amplo espectro que ao ser direcionada a um objeto permite visualizar a ordenação e o comportamento dos seus átomos, e potencialmente influenciar nas estruturas atômicas.

Se a luz é algo que nos faz enxergar a realidade, o seu caráter e comportamento tem sido objeto de extrema contradição na ciência nos últimos dois séculos. E mesmo com descobertas nada recentes ainda nos comportamos como se houvessem verdades absolutas. Em meados do século XIX, um físico, médico e egiptólogo Thomas Young gerou pela primeira vez o experimento da dupla fenda, e entendeu que a luz se comporta de forma dual, ora como partícula e ora como onda. Inspirado por essa descoberta, Louise de Broglie, em 1929, ganhou o prêmio nobel da física, quando postulou a teoria de extensão do comportamento dual da luz para toda a matéria atômica. Vamos lembrar que tudo que conseguimos enxergar é feito de átomos. Se os átomos se comportam da mesma forma que a luz, logo todo e qualquer objeto teria um comportamento dual.

Nos últimos anos, os cientistas quânticos, ao repetirem e adaptarem a teoria da dupla fenda, entenderam que a motivação da dualidade do comportamento da luz é a recorrência da presença ou não de um observador. O que ficou evidente é que a realidade da luz se adequa às condições estabelecidas no meio, se adequa ao momento da obtenção da informação. Se eu meço, é de uma forma, se eu não meço, é de outra. Fortalecendo o que o físico Wheeler, nos anos 70 postulou com outro experimento complementar (o da escolha adiada): "nenhum fenômeno é real até ser um fenômeno observado".

Mesmo desconsiderando toda a dualidade da matéria, se a luz é o que nos permite enxergar a realidade, logo o que vemos depende da luz. E se a luz se adequa às condições estabelecidas no meio, logo o que nós vemos é certamente mais instável e fluido do que imaginamos. Buda já sabia disso quando nos coloca a impermanência e a incerteza como os dois primeiros sofrimentos mundanos.

É bonito que duas fontes tão antagônicas, tão duais, comprovem por caminhos tão diferentes, a própria dualidade da realidade. Que tenhamos luz para que sejamos mais capazes de enxergar além do que os nossos próprios olhos nos mentem.

Elisa Carlos é mãe da Gabi, da Nina. É yogini, especialista em inovação, head de operação da Softex Nacional.


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