Opinião

Coalisões Globais: Adrienne Germain

Adrienne Germain apoiou o surgimento de lideranças de todas as idades


Divulgação
Margarethe Arilha
Crédito: Divulgação

Se alguém provou que uma coalisão internacional pode funcionar se houver liderança e clareza de ideias, processos coletivos articulados e bem conduzidos e metas claramente definidas, no campo do feminismo, essa pessoa foi Adrienne Germain. Ela deixou marcas excepcionais na construção do ativismo global ao criar mecanismos e apoiar, através do International Womens Health Coalition, o surgimento de lideranças de todas as idades, especialmente as jovens, em todos os continentes.

Mulheres sensíveis que lutaram pela defesa e promoção de direitos no campo da saúde da mulher. Desafiou linguagens, um de seus principais prazeres, e trabalhou com lideres locais, nacionais, regionais e globais, que também lhe ensinaram a sabedoria e talento nas ações estratégicas que acabou desenvolvendo.

Foi de especial valor sua decisão de motivar e promover a presença de mulheres feministas num grande acontecimento global, no Cairo, em 1994, para a realização da Conferência Internacional de População e Desenvolvimento e, assim, contribuir decisivamente com a construção da chamada linguagem do Cairo e de um Programa de Ação que hoje, mesmo quase trinta anos depois, inspira governantes, lideres locais e nacionais, parlamentares. A linguagem da Equidade de Gênero e Saúde Sexual e Reprodutiva e Direitos Reprodutivos ficou definitivamente marcada.

Participou e atuou como assessora e estrategista da Delegação Americana nessa Conferencia. Adrienne sabia inspirar-se no calor político da hora, sabia usar as oportunidades que se lhe apresentavam, discutia suas visões com mulheres brilhantes de equipes técnicas e grupos feministas ao redor do mundo, grupos políticos, e seguia em frente. No Brasil, com Maria José Araújo, Sônia Correa, Elza Berquó, Jacqueline Pitanguy , Maria Bethânea Ávila, Edna Rolland, Silvia Pimentel, compusemos um grupo extremamente lúcido e ativo, em diálogo permanente com IWHC.

Vamos dizer a verdade, nem sempre isso tudo era muito fácil. Muito decidida em suas posições, custava-lhe desistir da perfeição e da conquista. Germain possuía um mestrado em Sociologia e Demografia pela Universidade da Califórnia, em Berkeley, território que lhe fez sentido durante toda sua vida, até o fim. No Brasil, sua equipe para a América Latina, especialmente nas pessoas de Debbie Rogow e Susan Wood, desbravaram espaços, compartilharam e construíram visões de mundo estratégicas, e contribuíram assentando bases sólidas que fizeram prosperar, hoje vemos, um mundo novo. Políticas públicas modificadas de maneira exemplar, especialmente no campo da saúde e dos direitos sexuais e reprodutivos, abriram alas no país, e em toda a América Latina favorecendo a conquista de direitos à saúde das mulheres, em todas as etapas de sua vida, especialmente entre as jovens, com direito a conhecer e controlar seus próprios corpos. No caso do Brasil, particularmente, em nossa trajetória mais próxima, ECOS - Estudos e Comunicação em Sexualidade e Reprodução Humana e CCR - Comissão de Cidadania e Reprodução tiveram papel significativo em todos esses processos, ao lado do Coletivo Feminista Sexualidade e Saúde, da Rede Nacional Feminista de Saúde e Direitos Sexuais e Reprodutivos , SOS-Corpo, Cepia, dentre inúmeras outros ongs locais e nacionais.

O Brasil, nos anos 80, funcionou como um grande parâmetro e referência global em termos dos avanços registrados em suas politicas públicas, em promover a saúde integral das mulheres, em garantir a informação e o acesso a todos os métodos contracepcionais aprovados cientificamente no país. Será que voltaremos a esse lugar algum dia?

MARGARETH ARILHA é psicanalista e pesquisadora doNepo (Núcleo de Estudos em População Elza Berquo), da Unicamp


Notícias relevantes: