Opinião

Atenção a Cannes

Temas fortes sempre ganharam palco em Cannes, não raro com qualidade artística


Alexandre Martins
Rafael Amaral
Crédito: Alexandre Martins

O Festival de Cannes tem sido, há décadas, a principal vitrine do chamado "cinema de arte". Outras, como Berlim, Sundance, Veneza e Toronto, também têm peso - ainda que não produzam número maior de filmes importantes, sobre os quais estaremos falando anos a fio. Voltar a atenção a Cannes é fundamental para todo cinéfilo sintonizado com as novidades.

Basta dar uma olhada nos últimos vencedores da Palma de Ouro - o principal prêmio do festival - para comprovar seu nível de qualidade, concorde você ou não com ela (eu quase nunca concordo): no ano passado, "Titane"; em 2019, "Parasita"; em 2018, "Assunto de Família"; em 2017, o original e nem sempre lembrado "The Square".

Outros exemplos abundam em décadas passadas: em 1960, a Palma foi para "A Doce Vida", de Fellini; em 1970, a "MASH", de Robert Altman; em 1976, a "Taxi Driver", de Scorsese; em 1984, a "Paris, Texas", de Wim Wenders. Compare com os vencedores do Oscar de cada um desses anos e perceba a constante superioridade de Cannes.

Como em qualquer outra premiação ou festival, as estatuetas também são movidas a motivações políticas. Em 2004, a Palma foi dada a Michael Moore e seu polêmico "Fahrenheit 11 de Setembro", quando os Estados Unidos faziam incursões bélicas no Oriente Médio. O júri encabeçado por Quentin Tarantino mandou seu recado: a questão não era premiar o melhor, mas aquele que se alinhava ao espírito do momento.

Não foi a única vez. Em 1981, o festival já tinha um favorito antes mesmo de seu início: era "O Homem de Ferro", do lendário Andrzej Wajda. O cineasta brasileiro Carlos Diegues compunha o júri encabeçado pelo francês Jacques Deray e lembra do clima em seu livro "Vida de Cinema": "A luta do sindicato Solidariedade contra o domínio soviético na Polônia tinha tomado as manchetes mundiais. (...) Lech Walesa, líder católico da revolta popular, encontrava-se na cadeia. Artista e intelectuais estavam sendo presos, livros e filmes eram proibidos. Além de conhecido opositor do regime, Wajda era amigo pessoal de Walesa."

Continua Diegues: "O festival estava quase no fim quando Gilles Jacob [então seu curador] anunciou que Wajda havia conseguido escapar clandestino da Polônia e chegaria a Cannes com a cópia de "O Homem de Ferro" debaixo do braço. O público do festival recebeu a notícia com euforia, celebrando a vitória parcial da democracia na Europa dividida". Não deu outra: Wajda ficou com a cobiçada Palma de Ouro.

Temas fortes sempre ganharam palco em Cannes, não raro acompanhados de qualidade artística. "4 Meses, 3 Semanas e 2 Dois" discute o aborto na Romênia de Nicolae Ceausescu; "Entre os Muros da Escola", a educação nas escolas francesas; "A Fita Branca", o germe do nazismo na Europa pré-Primeira Guerra Mundial.

A safra de 2022 traz cineastas de alto calibre concorrendo à Palma, como James Gray, os irmãos Dardenne, Kelly Reichardt e até veteranos que nunca ganharam o prêmio, como David Cronenberg e Jerzy Skolimowski. E o cinemão, claro, também dá as caras. Nesta edição, Tom Cruise esteve por lá para lançar seu novo "Top Gun". Tapete vermelho, fotógrafos desesperados, belas estrelas na redoma - sem nunca deixar a arte de lado.

Rafael Amaral é crítico de cinema e jornalista; escreve em palavrasdecinema.com


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