Opinião

Um certo capitão Jair

A política era algo fácil para ganhar dinheiro. Os filhos viam o exemplo do pai


 Arquivo pessoal
Samuel Vidilli
Crédito: Arquivo pessoal

Para muitas pessoas, a vida simplesmente acontece. Sem muito plano. Sem grandes reflexões. Vai-se indo. Sem nenhum planejamento.

Assim parece a vida de um certo capitão Jair. Esse pragmatismo, aliado aos ventos da vida, levou o menino pobre do Vale do Ribeira a conhecer o exército, onde tentou fazer carreira, malograda após ser acusado de planejar explodir pequenas bombas nos quartéis em protesto aos baixos salários.

Já à época ele era descrito pelo seu superior como homem de uma "excessiva ambição em realizar-se financeira e economicamente", além de ter "permanentemente a intenção de liderar os oficiais subalternos, no que foi sempre repelido, tanto em razão do tratamento agressivo dispensado a seus camaradas, como pela falta de lógica, racionalidade e equilíbrio na apresentação de seus argumentos". Quem avisa...

Para não ser expulso, o capitão deu baixa. Para não ficar desempregado, enxergou na política bagunçada da Nova República uma oportunidade de carreira. Resolveu usar a tribuna em defesa dos seus interesses como militar da reserva.

Alguns de seus pares gostaram da ideia. Incentivaram-no. Foi bem votado. Ganhou e foi ficando, mandato após mandato. Porém, sem amigos ou deputados aliados. Ninguém queria ser visto com o capitão louco. Qualquer um de seus pares com alguma função cognitiva sabia que política é a arte de bem relacionar-se, e não de queimar navios.

A política era algo fácil para ganhar dinheiro. Os filhos viam o exemplo do pai. Pra quê estudar muito e mesmo trabalhar se poderiam, apenas usando o famoso sobrenome, ocupar um espaço assim?

O mais velho começou se candidatando. Ganhou. O segundo, ainda aos 17 anos, idem. O terceiro filho, na ausência de espaço no mesmo estado em cargo, teve a brilhante ideia de concorrer por outro estado apenas como... Bolsonaro. Também ganhou.

E tudo ia muito bem. Cada um ganhando seus salários e etcs.

De repente, um turbilhão na política nacional. Decepção. Indignação. Raiva. Ódio visceral.Loucura.E (ah, o rumo dos acasos da vida...) esse último estágio, alguém se lembrou do ex-militar. Aquele, o capitão, assim como seus filhos (que para sobreviver fazem coro para o discurso do pai) começaram a ter mais palanque e audiência que os ouvia atentamente.

Começaram até a surgir amigos. Loucos. Mas amigos. Para estes, as piadas não constrangiam mais.

Queimar os navios tornou-se uma constante.

Assim, bastaria converter o ex-militar que adorava piadas sujas, casado pela terceira vez, em um homem de fé. Deus acima. Deus vult. Para tanto, divulgou-se vídeo da família toda, capitão e filhos, no Rio Jordão, em Israel. Pastores e líderes religiosos lhe deram apoio irrestrito.

E assim ganhou algo que nunca havia imaginado: a cadeira de presidente. De comandante-em-chefe.

Realmente, a vida, para alguns, simplesmente acontece.

O homem que era um nada tornou-se tudo na república. E acabou incorporando o Messias de um Brasil reacionário. E descobriu, rapidamente, as vantagens de ser o comandante-em-chefe.Um homem que não tem limites. Um imbecil que faz piadas de português para ninguém menos que... o presidente de Portugal. Que diz ao presidente americano "I love you".

Um homem que conseguiu diminuir a dignidade de um cargo que deveria ser, em teoria, o mais importante da república.

E ele gostou disso e não parece à vontade para dar fim ao seu tempo no Planalto. Da mesma forma que o capitão Rodrigo Cambará se encantou imediatamente por Santa Fé no livro Um certo capitão Rodrigo, de Veríssimo:

- Buenas e me espalho! Nos pequenos dou de prancha e nos grandes dou de talho!

Repetiria essa frase o capitão Messias se ele soubesse o significado dela. Mas não. Ele nunca deve ter lido um livro sequer que não tenha sido os catecismos de Carlos Zéfiro junto aos amigos de caserna.

Que esse certo capitão Jair não queira se "espalhar" mais do que lhe cabe.

Samuel Vidilli é cientista social, professor e escritor. Apreciador de música clássica, charutos e bebidas amargas - como a vida.


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