Opinião

Neve em São Paulo

Nosso empenho terá enorme importância para o futuro de nossos filhos e netos


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Miguel Haddad
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Do jeito que o clima está mudando, isso pode acontecer. E não será um bom sinal.

Há cerca de meio século o cientista inglês James Lovelock, que participou da seleta equipe da NASA encarregada de analisar a hipótese de haver vida em Marte, formulou "A Hipótese Gaia" (o nome vem de uma divindade mitológica, que personifica o planeta Terra). Segundo Lovelock, a vida, ao surgir no planeta, assume o controle do ambiente e passa a manipulá-lo em seu benefício.

Sua hipótese, hoje considerada uma teoria científica, vinha como uma advertência: a partir da Revolução Industrial a emissão de gases resultantes da queima de combustíveis fósseis aumentou exponencialmente a sua concentração na atmosfera e afetou o delicado equilíbrio do clima. Caso a emissão desses gases não fosse drasticamente reduzida, as mudanças no meio ambiente poderiam ser catastróficas, constituindo-se numa ameaça concreta ao futuro da Humanidade.

Desacreditada pelos cientistas, que consideraram a Hipótese Gaia fantasiosa, de início nenhuma providência concreta foi tomada para evitar o advento desse cataclisma.

Com o passar dos anos, as evidências do desequilíbrio do clima tornaram-se incontornáveis. Hoje já podemos presenciar suas consequências, expostas quase diariamente na cobertura da mídia. Em nosso País - assim como praticamente em todas as demais nações - cresce o número de vítimas tanto de chuvas torrenciais, que causam enchentes e desmoronamentos, como das variações recordes de temperaturas e da alteração do regime de chuvas, que têm exposto nossos reservatórios a secas prolongadas, afetando com isso a produção de energia e o abastecimento de água.

A discussão agora já não gira mais em torno da existência ou não - como queriam os negacionistas - da ameaça do desequilíbrio climático, mas sim de quão próximo estamos do chamado ponto de não retorno, ou seja, quando nenhuma providência, mesmo a mais drástica, conseguiria impedir a desorganização do mecanismo que rege o meio ambiente planetário.

Os dados do Painel Intergovernamental sobre Mudanças do Clima da ONU, expostos em seu contundente relatório divulgado agora, em maio, nos coloca contra a parede: o aquecimento global é pior e mais rápido do que se temia. Em menos de uma década, por volta de 2030 - dez anos antes do que se estimava até recentemente - o aumento da temperatura global poderá chegar a 1,5ºC, um índice perigosamente próximo do ponto de não retorno, com risco de cataclismas "sem precedentes" para a vida no planeta.

Segundo o relatório,o planeta já alcançou 1,1ºC e, em razão disso, começa a sofrer as consequências: incêndios que arrasam os Estados Unidos, Grécia e Turquia; chuvas diluvianas, a temperatura no Canadá chegando a 50ºC, entre tantos outros fenômenos atípicos. "Se acham isso grave - diz Kristina Dahl, da organização União de Cientistas Preocupados (Union ofConcernedScientists) - lembrem-se que o que vemos agora são apenas os primeiros sinais."

O relatório mostra, ainda, que algumas consequências já são irreversíveis: o degelo dos polos fará com que o nível dos oceanos continue aumentando "durante séculos ou milênios". O mar, que já subiu 20 centímetros desde 1900, ainda poderia aumentar mais meio metro até 2100 mesmo que o aquecimento seja mantido a 2ºC. "Parece distante, mas milhões de crianças já nascidas ainda viverão no século 22", destaca Jonathan Bamber, autor do relatório.

Esse relatório da ONU é mais um na longa lista de estudos feitos por diversas entidades, nas últimas duas décadas, alertando as autoridades mundiais acerca da extrema gravidade dos fatos. Mesmo assim, as metas fixadas nas cúpulas mundiais para tratar dessa questão jamais foram cumpridas.

O Brasil é chave para conseguirmos amenizar essas catástrofes. A Floresta Amazônica, o Cerrado e a Mata Atlântica são capazes de sequestrar uma enorme quantidade de gases que causam o efeito estufa. Precisamos não apenas conservar esses biomas, mas ampliá-los, restaurando as áreas degradadas. Nosso empenho nesse esforço terá enorme importância para o futuro de nossos filhos e netos.

Teremos, ainda neste ano, uma nova cúpula mundial para definir medidas contra o problema do desequilíbrio. Vamos esperar que o relatório da ONU, em sua contundência, que deixa claro a urgência em tomarmos providências para evitar o pior, finalmente faça com que os compromissos acordados nessa oportunidade realmente se efetivem.

MIGUEL HADDAD é advogado, foi deputado e prefeito de Jundiaí


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