Opinião

Quem garante que o sol nascerá amanhã?

O que há, e só o que há, é a esperança de que veremos a alvorada


Alexandre Martins
Felipe dos Santos Schadt
Crédito: Alexandre Martins

"Mas é claro que o Sol, vai voltar amanhã"… O Renato Russo vai me desculpar, mas eu tenho que questionar. Será que o Sol realmente vai voltar amanhã David Hume, um pensador inglês, diria que não. Não há nenhuma garantia de que o Sol volte amanhã. Alias, não há nenhuma garantia para nada que ainda não está aqui. Viver é basicamente uma roleta russa da existência. Pode ser que você acorde amanhã e siga sua vida normalmente, pode ser que o universo deixe de existir assim que você terminar de ler esse texto. Não existe garantia de nada.

De onde veio a ideia de que o Sol nascerá amanhã? "Oras… o sol nasce todo dia, então é meio lógico que ele vai nascer amanhã". Isso é o que chamamos de hábito! O hábito é a repetição de determinada ação que praticamente não muda e nos força a acreditar que se algo já aconteceu tantas vezes, ele irá acontecer outras tantas. Nós somos muito apegados ao hábito como metodologia comportamental. E damos uma carga positiva para ele. "O hábito da leitura é bom porque te faz ter mais conhecimento", aí você cria um hábito de todos os dias ler 20 páginas. Quando você vê, já se passaram 10 dias e você leu um livro de 200 páginas. Existem pessoas que possuem o hábito de tomar café. Ou de fazer uma caminhada, ou de meditar. O hábito se torna parte de você. Ou você se torna parte do hábito?

Quando preenchemos nossas vidas com o hábito, o ineditismo, o encontro virginal, a novidade normalmente incomoda. Você que lê 20 páginas de livros diariamente, experimente acordar atrasado e perder o horário da leitura. Ou, para os bebedores de café, experimente ficar sem tomar a sua xícara de café diária. Tão acostumados com o hábito, a quebra de rotina machuca muito mais.

O hábito inclusive faz com que a gente se torne mais esperançoso. Você dorme cheio de esperança de que lerá seu livro ou tomará seu café no dia seguinte, assim como faz todos os dias. Mas será que viver esperançoso é bom? Penso que mais ou menos…

Todos os dias você acorda no mesmo horário, vai para o ponto de ônibus no mesmo horário e ele chega, pontualmente, no mesmo horário. Só que em um dia específico, o ônibus não chegou no horário habitual. Você esperou. Ele não veio. Você manteve firme a esperança que ele iria chegar a qualquer momento. E ele ainda não apareceu. Você começou a se preocupar com o eminente atraso no trabalho, mas ainda sim esperou. Nada do ônibus. Você passou a não acreditar mais que seu ônibus viria. Você resolveu tomar uma atitude. Você resolve chamar um táxi.

Essa história reflete que você, prisioneiro do hábito do horário do ônibus e absorto de esperança de que ele cumprirá o seu papel habitual, só agiu quando a esperança acabou. Eu não sei se você percebeu, mas o hábito leva à esperança e a esperança leva a inércia. Você percebe que se tornou uma pessoa que espera e só.

Espera que o tempo vai melhorar. Espera que a pessoa vai voltar. Espera que o jogo vai começar. Espera que tudo vai se resolver. E se continuar chovendo? E se a pessoa não voltar mais? E se o jogo não acontecer? E se tudo não tiver mais solução? Na mesma música Renato Russo diz: "Quem acredita sempre alcança"… Bom, só acreditar não basta. Você provavelmente não vai chegar no trabalho se só esperar pelo ônibus que não chega.

Não existe nenhuma garantia de que o sol nascerá amanhã. O que há, e só o que há, é a esperança de que veremos a alvorada. Mas não se apegue na esperança. O amanhã pode nunca acontecer e você pode desperdiçar sua vida esperando… Deixando para depois… Confiando no hábito. O amanhã, até hoje, sempre chegou. Mas não há garantia nenhuma de que essa lógica se repetirá no dia seguinte. E já que não há garantias de que o amanhã chegue, melhor viver a única coisa que você tem, que é o agora.

Conhecimento é Conquista.

FELIPE SCHADT é jornalista, professor e cientista da comunicação pela USP


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