Opinião

O prisioneiro, de Erico Verissimo

Trata-se de uma "fábula moderna sobre aspectos da estupidez humana"


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Professor Fernando Bandini
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Publicado em 1967, "O prisioneiro" é o penúltimo romance de Erico Verissimo. O livro saiu em meio à guerra do Vietnã, conflito que recebeu inédita atenção da mídia mundial. De acordo com o escritor, trata-se de uma "fábula moderna sobre aspectos da estupidez humana".

Não há nomes no livro. Ambientado num país do sudeste asiático, mergulhado em guerra fraticida, o leitor desconhece os nomes da cidade, do país e dos personagens, referidos pelo ofício ou cargo. Dessa forma, aparecem soldados do "exército regular do Sul", ajudados pelos seus "aliados brancos de além-mar". Dentre esses aliados, há o "coronel", o "major", o "tenente", o "sargento". Dos nativos, destacam-se a "professora", o "velho", "dois irmãos moços", o "porteiro".

Como numa clássica tragédia grega, a história desenrola-se num único dia. Depois de explosão que arrebenta bordel frequentado por militares e civis, o coronel ordena ao tenente que interrogue prisioneiro a fim de descobrir onde foi colocada uma segunda bomba, que os serviços de inteligência afirmam existir, e que seria deflagrada poucas horas depois da primeira. Existe pressa para obter a informação.

Desse fio de enredo partem outras tramas. Como a desse mesmo coronel, branco, comandante na região, militar de carreira agora afastado do front, enredado pela burocracia que seu comando exige. De rígida formação religiosa, ele assombra-se com seus fantasmas, como o conflito inescapável com o pai moralista e manipulador.

O tenente interrogador é mestiço de pai negro e mãe branca, sofrendo com a discriminação escancarada em sua terra natal. Não se aceita negro e não é aceito pelos brancos. Psicólogo de formação, o tenente está a um dia de completar seu tempo de serviço militar e às vésperas de regressar a seu país. Não deve partir antes de visitar o bordel e despedir-se de K, jovem prostituta por quem se apaixonara nessa estadia de meses. O tenente cogita escapar da missão ordenada pelo coronel. Mas se for cumpri-la, deve empregar quais métodos para obter a informação crucial? Dilemas morais que revolvem ainda mais o já atormentado personagem, remoendo continuamente a relação com o pai amoroso, mas do qual o filho queria distância.

A longa conversa travada com sua amiga, a "professora", é um dos pontos altos do livro. Filha de imigrante da "antiga potência colonizadora" (subentende-se a França), ela dominava a língua local e estava bem integrada ao país. Desse diálogo emergem algumas das ideias antibelicistas da obra, recortes precisos de um mundo dividido de maneira desproporcional pelo mandonismo de poucos e pelo miserê de muitos.

Erico Verissimo morou nos Estados Unidos em duas ocasiões distintas. Na década de 1940, passou dois anos como conferencista e professor visitante de Literatura na Califórnia. Na década seguinte, viveu por três anos em Washington, como encarregado de assuntos culturais da Organização dos Estados Americanos (OEA).

Sua filha casou-se com um estadunidense e lhe deu três netos nascidos nos Estados Unidos. A eles, Michael, Paul e Edward, o avô dedica o livro.

FERNANDO PELLEGRINI BANDINI é professor de Literatura no
Ensino Médio


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