Opinião

Ray Liotta e o papel de uma vida

O filme de Martin Scorsese é sobre uma vida nas entranhas da máfia


Alexandre Martins
Rafael Amaral
Crédito: Alexandre Martins

A morte de Ray Liotta, na semana passada, exigiu um pouco de esforço da crítica e do público para explicarem que não se tratava apenas do protagonista de "Os Bons Companheiros". É verdade que o ator fez outros filmes interessantes, alguns deles como coadjuvante. Vêm à mente "Totalmente Selvagem", "Campo dos Sonhos", "Cop Land", "O Homem da Máfia" e o recente "História de um Casamento".

Difícil mesmo é separá-lo de Henry Hill. É, como eu costumo dizer, o "papel de uma vida", pelo qual será lembrado. E não há nada de ruim nisso: Hill, de "Os Bons Companheiros", é uma das grandes personagens da sétima arte, uma criação cheia de camadas da qual nos aproximamos rapidamente, alguém que aprendemos a odiar e depois compreendemos. Humano dentro de um sistema perverso, desumano, cercado por criminosos engravatados.

O filme de Martin Scorsese é sobre uma vida nas entranhas da máfia. Ascensão, camaradagem, traição. A narração é do próprio Liotta, que, como Hill, lembra da adoração aos valentões do bairro, os mafiosos que via de sua janela: eles podiam fazer o que quisessem e não eram impedidos. Faziam suas próprias leis. O então adolescente é seduzido por esse estilo de vida, foge da escola e começa na máfia fazendo pequenos serviços.

Mais velho, já na pele de Liotta, vemos o bandidinho em terno riscado e sapato social brilhoso. Sempre sorridente, alguém que não existe - não paga impostos - senão em seu próprio meio. É o "espertinho", o "wiseguy", como nos diz o título do livro de Nicholas Pileggi que deu luz ao filme (Pileggi é o autor do livro e um dos roteiristas de "Cassino", também de Scorsese, considerado o filme-irmão de "Os Bons Companheiros").

Os amigos de Hill são assassinos e ladrões perigosos. James Conway é vivido por Robert De Niro, Tommy DeVito por Joe Pesci. A química destilada pelo trio é espetacular, como se fossem amigos a vida toda. Mesmo ao lado de gigantes da sétima arte, Liotta não se apequena: o filme é dele, dono das risadas malandras, do suor que escorre pela face nos momentos mais tensos, quando a polícia está em seu encalço e ele é levado, para salvar sua pele e a de sua família, a entregar os velhos e bons companheiros.

A nova realidade dada ao mafioso, quando o filme chega ao fim, é a vida comum. Torna-se aquilo que sempre repudiou: o americano médio que acorda cedo, de roupão, para pegar o jornal na frente de casa. Entendemos porque a personagem de Liotta odeia aquilo: agora ele tem uma ficha junto ao sistema, é vigiado, ganhou um novo nome e paga impostos.

Há personagens que, tão grandes, terminam por perseguir seus atores. Sean Connery lutou para provar que poderia ser lembrado não apenas por James Bond. Nem todos conseguiram. Anthony Perkins, mesmo gigante em outros papéis, como no "Processo" de Orson Welles, seria eternamente lembrado por Norman Bates, o filho recluso da mãe que nunca vemos, no motel à beira de estrada, em "Psicose", de Alfred Hitchcock.

Claro que o resultado não é mérito só do ator. Scorsese, conhecedor do mundo da máfia, deu a Liotta a oportunidade de oscilar entre o camarada com algum coração e o bandido que reluta a repreender as loucuras de seus companheiros. Liotta brilha porque se recusa a ser uma consciência de libertação. Ele quer apenas livrar a própria pele - nem que para isso tenha de terminar em uma casa de subúrbio, como um homem comum.

Rafael Amaral é crítico de cinema e jornalista; escreve em palavrasdecinema.com


Notícias relevantes: