Opinião

Evolução sem perder a essência humana - CVV 60 anos

De 15 voluntários em 1962, somos cerca de 4.200 atualmente


Arquivo pessoal
Lorival Marcusso Blanco
Crédito: Arquivo pessoal

De tantas histórias de superação, coragem e empreendedorismo de brasileiros, uma das que mais me toca e tenho como exemplar é a do CVV, de sua fundação há 60 anos até hoje.

Imagine que em 1962 um grupo de jovens reuniu o que havia de possibilidades na ocasião para iniciar um trabalho sem precedentes neste lado do oceano: oferecer ajuda gratuita a pessoas em momentos de crise ou com ideação suicida. Para isso, utilizaram o mais moderno em termos de telecomunicações: o telefone fixo. Hoje, essa organização seria chamada de startup social. O objetivo não era substituir os serviços médicos e psicológicos, mas estar ao lado de quem precisava na hora em que ele precisasse.

Das questões mais incríveis que vejo nisso é a humildade e a inovação. Humildade de fazer mudanças quando percebiam que algo estava errado ou poderiam melhorar. O maior exemplo disso é a própria técnica da abordagem utilizada nos atendimentos. Evoluíram de diversas maneiras, sempre buscando um jeito novo, mais autêntico e verdadeiro de se aproximar da pessoa que pede ajuda, deixando-a à vontade, sentindo-se acolhida e respeitada em seus sentimentos mais íntimos e opiniões mais legítimas.

O que se fala hoje sobre conceder espaço para a sensação de pertencimento e o reconhecimento de si próprio, é praticado pela instituição há muitos anos.

Com o tempo, novas tecnologias e outras instituições similares surgiram ao redor do mundo. Com isso, estreitamos laços com essas iniciativas para crescermos juntos, por exemplo, sendo ligados ao Befrienders Worldwide que congrega diversos serviços do gênero. Pelo que vemos, o CVV é a associada com o maior número de voluntários e maior número de atendimentos ao ano e fomos a primeira a oferecer atendimento por chat. Sempre inovando.

Acompanhamos todas as fases e momentos da história do Brasil, pois o que acontece na sociedade se vê refletido nos atendimentos. Passamos por crises econômicas, perseguições políticas, catástrofes com vítimas, alegrias e tristezas... e os voluntários do CVV sempre estiveram disponíveis para ouvir e acalmar a sensação de solidão, medo e desesperança.

Um episódio muito triste para a história brasileira, que foi o incêndio na Boate Kiss na cidade gaúcha de Santa Maria, acabou gerando uma importante oportunidade para nós e para quem precisa de apoio emocional. Alguns voluntários do CVV local montaram tendas próximo à boate, oferecendo escutaempática, compreensão e entendimento a quem estivesse desesperado, triste, arrasado pela situação. E foi a partir disso que o Ministério da Saúde, preocupado com as consequências do desastre, concedeu o 188 somente no Rio Grande do Sul como um número telefônico sem custo de ligação para as pessoas entrarem em contato com o CVV.

O sucesso foi tanto que, tempos depois, o 188 foi expandido para todo o território nacional. Para isso funcionar, passamos a utilizar uma tecnologia de gestão de chamadas telefônicas que poucas empresas nacionais possuem. Em 2017, quando concluímos a implantação desse sistema em todo o Brasil, fazíamos 1 milhão de atendimentos ao ano e fechamos 2021 superando a marca dos 3,5 milhões de atendimentos. Uma evolução espetacular.

De 15 voluntários em 1962, somos cerca de 4.200 atualmente que realizam ao redor de 32 mil horas de atendimentos por mês.

Algo muito importante e que é símbolo de confiabilidade e solidez para mim, é que nesses anos todos, o CVV evoluiu muito em termos de metodologias, tecnologias e infraestrutura, mas sem jamais perder a essência humana. Éramos, somos e seremos sempre pessoas que conversam com pessoas, com foco nas emoções, no acolhimento sem críticas ou aconselhamentos. A máquina não vai nos substituir, mas nosauxiliar. O voluntário, aquele ser humano que se dispõe ao serviço gratuitamente, é o principal pilar da entidade e o maior beneficiado é sempre a pessoa que busca ajuda.

Há muito a ser feito, não tenho dúvidas. Ajustes são fundamentais para que possamos continuar crescendo em volume de atendimentos e nos adaptando às novas situações e oportunidades sociais. Olhando aquele grupo de jovens na década de 60 vemos com clareza que muita coisa mudou, mas a essência permanece e nos movimenta à frente.

Lorival Marcusso Blanco
é presidente do Centro de
Valorização da Vida


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