Opinião

Eles também erram

O Brasil ganharia mais se estimulasse a criatividade das crianças


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Jose Renato Nalini
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É bom escutar que a poderosa OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico) vai revisar os critérios para a avaliação trienal conhecida como PISA (Programa Internacional de Avaliação de Alunos). Isso porque aferir os ganhos na aprendizagem mediante a capacidade de memorizar informações mostrou-se falho.

A partir dos próximos exames, haverá um teste cognitivo de pensamento criativo. Isso permitirá verificar se os educandos de 15 anos têm condições de arquitetar, avaliar e melhorar ideias que possam se transformar em soluções originais e eficazes.

Muito mais importante do que o "decoreba" convencional, é constatar se o raciocínio dos alunos tem adequação, flexibilidade ou originalidade e se as propostas que resultarem da reflexão que lhes forem submetidas.

Isso é muito importante quando se verifica o sucateamento da indústria brasileira, que perdeu cérebros para a civilização e que não pensa em oferecer opções para a sua juventude. Logo mais não haverá empregos suficientes para o número de candidatos em busca de formas dignas, decentes e rentáveis de sobreviver.

Imersos na 4ª Revolução Industrial, com as profundas mutações que ela gera, os estudantes sabem que aquelas ofertas antigas já não convencem. Nós não soubemos demonstrar à mocidade que o essencial é ser feliz e fazer aquilo que nos torna felizes, independentemente de um diploma que vai servir para quase nada.

O Brasil tem um potencial enorme de oportunidades. Se houver interrupção no projeto eficaz de destruição da floresta e da biodiversidade, será o destino para turistas de todo o planeta. Com mais de oito mil quilômetros de orla, tem o litoral mais bonito do mundo. Mas não se oferece o nível exigido pelos que podem pagar por turismo de qualidade. O setor de serviços é sofrível, a infraestrutura deixa a desejar, a maior parte dos que atendem são monoglotas e a insegurança é propalada com intensidade por toda a mídia universal.

O território compatível com a preservação de cobertura vegetal poderia ser um atrativo para todos aqueles que precisam compensar emissões venenosas. A economia de baixo carbono, tendente ao verdadeiro estágio de total descarbonização, reclama o desenvolvimento de atividades pertinentes a essa cultura. Formar viveiros, fazer mudas, replantar, restaurar áreas degradadas pela agricultura predatória, tudo isso abre caminho para profissões que serão muito mais importantes do que as tradicionais formações bacharelescas.

Em lugar de adestrar crianças que repetem o que está no livro, o Brasil ganharia mais se estimulasse a criatividade natural com que elas nascem. Educação é coisa séria demais para se deixar exclusivamente na responsabilidade do governo. Por isso teve razão o constituinte de 1988 ao disciplinar a educação como direito de todos, mas dever do Estado e da família, em colaboração com a sociedade.

As famílias têm de estar muito próximas à escola. Quando funciona a presença materna dentro da escola, tudo vai melhor. Deve-se revitalizar as Associações de Pais e Mestres e também ouvir os próprios alunos, que se entediam com razão quando encontram aulas prelecionais insossas e desatualizadas.

De qualquer forma, conforta o país periférico assistir ao "mea culpa" da OCDE, que priorizava a capacidade mnemônica e desprezava o mais importante. Sinal de que civilizados também erram!

José Renato Nalini é Reitor da UNIREGISTRAL, docente da Pós-graduação da UNINOVE e Presidente da ACADEMIA PAULISTA DE LETRAS - 2021-2022.


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