Opinião

Bellocchio, o maior em atividade

A prisão do mafioso Tommaso Buscetta no Brasil criou imbróglio linguístico


Alexandre Martins
Rafael Amaral
Crédito: Alexandre Martins

A prisão do mafioso italiano Tommaso Buscetta no Brasil, no início dos anos 1980, criou um imbróglio linguístico para a imprensa nativa: pegaria mal dizer o sobrenome do prisioneiro da maneira como se fala, ou seja, "Buxeta" - o que faz pensar na anatomia feminina. Para resolver o problema, adotaram "Busqueta". E assim o mafioso ficou conhecido por aqui.

A troca é inclusive corrigida pelo próprio, em sua versão de ficção, no ótimo "O Traidor", de Marco Bellocchio, lançado nos cinemas brasileiros recentemente e disponível para aluguel digital. Quando um policial invade sua casa com um mandado de prisão e o chama de "Busqueta", ele logo corrige a autoridade, irritado: "É Buscetta!".

A prisão ocorreu no Rio de Janeiro, no Brasil ainda sob a Ditadura. Preso e torturado, Buscetta chegou a ser colocado em um helicóptero e, em pleno voo, com uma arma contra a face, viu sua mulher ser torturada em outro helicóptero, pendurada pelos cabelos. Ela, interpretada no filme por Maria Fernanda Cândido, sobreviveu ao episódio. Ele, ao que se sabe (o filme não explica ao certo), não deu aos policiais as informações que desejavam.

Essas situações ocupam apenas o início do filme. Bellocchio, com roteiro escrito a várias mãos, mostra como foi a extradição do mafioso à Itália, sua colaboração com o mítico juiz Giovanni Falcone - morto pela máfia em um atentado à bomba em maio de 1992 - e todo o desenrolar que sacudiu o mundo do crime, com centenas de homens presos.

Bellocchio tem 82 anos e é provavelmente o melhor diretor em atividade no mundo - a rivalizar com Cronenberg, Godard, Scorsese e alguns poucos outros. É um dos únicos ainda vivo da geração do cinema político italiano dos anos 1950 e 1960 e que tem entre seus representantes nomes como Elio Petri, Francesco Rosi e Bernardo Bertolucci.

Na última edição do Festival de Cannes, Bellocchio apresentou seu trabalho mais recente, "Esterno Notte", com cinco horas de duração (será apresentado em capítulos na televisão italiana). A exemplo do anterior "Bom Dia, Noite", de 2003, o mestre italiano debruça-se sobre a história do sequestro e assassinato de Aldo Moro pelas Brigadas Vermelhas em 1978, episódio-chave para compreender os rumos de seu país na época e depois.

Bellocchio é um homem de esquerda. A política é sempre complexa, nunca bipolar. Em seus filmes ele sempre tentou reproduzir isso, desde o primeiro, uma das estreias mais interessantes da sétima arte: "De Punhos Cerrados", lançado em 1965, sobre um jovem perturbado e rebelde que pretende destruir a própria família. Pouco depois viria outro grande feito, "A China está Próxima", assim como "O Monstro na Primeira Página", já nos anos 1970, um dos melhores filmes sobre a corrupção no mundo do jornalismo.

"Diabo no Corpo" provocou algum escândalo nos anos 1980 e "O Processo do Desejo", de 1991, é um grande filme pouco visto sobre um homem e uma mulher que terminam presos em um museu quando suas portas são fechadas. Quase o filme todo, há só duas personagens envoltas em erotismo, com as pinturas a encará-las em seus refúgios e interpretações.

Entre longas, curtas e documentários para a televisão, Bellocchio nunca parou de trabalhar. Entre os filmes feitos após os anos 2000, vários merecem destaque, como "A Hora da Religião", "A Bela que Dorme", "Sangue do Meu Sangue" e, claro, "Vincere", sobre a ascensão de Benito Mussolini e a trajetória de sua amante Ida Dalser, trancada em um hospício para não revelar o que sabia. Do Duce a Aldo Moro, depois chegando a Buscetta, Bellocchio nunca parou de refletir sobre a História de sua Itália.

Rafael Amaral é crítico de cinema e jornalista; escreve em palavrasdecinema.com


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