Opinião

Quem tem fome, tem pressa

Para qualquer Presidente minimamente sério, a fome deveria ser a maior preocupação


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SISTEMA PENITENCIARIO FABIO JACYNTHO SORGE
Crédito: .

Cerca de 33,1 milhões de brasileiro vivem em situação de fome. Como o país tem uma população de 212,6 milhões de pessoas, isso significa quase 15% da população. Esses dados são de uma pesquisa da Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional (Rede PENSSAN), em seu 2º Inquérito Nacional sobre Insegurança Alimentar no Contexto da Pandemia da Covid-19 no Brasil. Em relação à 2020, houve um aumento de 14 milhões de pessoas que passam fome no país.

Além disso, houve um aumento das famílias em situação de insegurança alimentar, ou seja, aqueles que não conseguem ter acesso a alimentos de qualidade, em quantidade suficiente, sem comprometer o acesso a outras necessidades especiais. A insegurança alimentar pode ser leve, quando há incerteza ou preocupação com o acesso a alimentos no futuro, moderada, quando há redução quantitativa de alimentos para os adultos e grave, quando a redução atinge também as crianças.

A pesquisa mostrou que 125,2 milhões de brasileiros vivem com algum grau de insegurança alimentar, número que corresponde a mais da metade (58,7%) da população do país.

Na comparação com 2020, a insegurança alimentar aumentou em 7,2%. Já em relação a 2018, o avanço chega a 60%.

Os números assustam, já que temos mais da metade da população do país, sem conseguir suprir a mais básica das necessidades humanas, se alimentar.

As causas do aumento da fome, estão ligadas à pandemia do Covid-19, bem como à atuação do Governo ao longo da crise e ainda às políticas econômicas equivocadas.

Para qualquer Presidente da República minimamente sério, essa deveria ser a maior preocupação do Governo, bem como um dos temas mais discutidos na campanha eleitoral que se avizinha. O que fazer para reduzir a fome, deveria ser o assunto do dia. Quem tem fome, tem pressa.

Na verdade, temos um cenário de alta de inflação, de desemprego e queda de renda, em especial nos segmentos mais pobres da população e o governo parece inerte, não sabendo o que fazer.

É preciso que se articule com urgência programas sociais estruturados, para que essa população consiga voltar a comer e isso começa por um auxílio financeiro de maior valor, em especial nesta situação de urgência, passando depois por programas de recolocação profissional e ainda por uma melhora da economia, o que permitiria uma maior geração de empregos. Além disso, é preciso reduzir a desigualdade social, que no Brasil atinge níveis alarmantes. Isso porque, com a concentração de renda, melhora na economia, por vezes, significa mais dinheiro para os mais ricos.

No mais, é preciso incentivar a produção de alimentos, pois, apesar de atingir níveis recordes de produção, o agronegócio acaba voltando a sua atenção para produção de commodities, produtos que funcionam como matéria-prima, como soja, trigo, milho e café. Além dos grãos, o Brasil é um grande produtor de cana-de-açúcar, item que também não é focado apenas na alimentação, já que é a matéria-prima para o etanol.

Por isso, compete também ao governo a adoção de estímulos para os que produzem alimentos, em especial, aqueles que compõe a cesta básica. E aqui, o acesso ao crédito, deve se dar especial aos pequenos produtores que se dedicam a agricultura familiar, já que são eles os grandes responsáveis pela produção de alimentos. Não adianta liberar crédito somente para as grandes empresas e criar dificuldades para o pequeno agricultor.

Em conclusão, há muito trabalho a ser feito e é preciso que sejam tomadas medidas urgentes, já que quem tem fome, tem pressa.

FÁBIO JACYNTHO SORGE é defensor público do estado de São Paulo e coordenador da Regional de Jundiaí


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