Opinião

Uma nova era de estagflação?

Estagflação une estagnação econômica, ou mesmo recessão, com inflação alta


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Vandemir Francesconi Junior
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No início do mês, o Banco Mundial fez um alerta preocupante para o mundo: há um risco considerável de estagflação à frente. O alerta foi feito em relatório sobre as perspectivas econômicas globais no qual foi anunciada a nova previsão da instituição para o crescimento da economia mundial este ano - redução de 4,1% para 2,9%, ou seja, significativa desaceleração frente ao avanço de 5,7% registrado em 2021.

A estagflação une estagnação econômica, ou mesmo recessão, com inflação alta, ou seja, é o pior dos cenários. Segundo o relatório, as causas são os danos causados pela guerra Rússia-Ucrânia no mercado de energia e no de alimentos, a pandemia, os lockdowns na China, além dos gargalos e das interrupções nas cadeias de suprimentos. O mundo viveu este fenômeno nos anos 1970 e as sequelas foram grandes.

De fato, a inflação ao consumidor atual nos países desenvolvidos lembra a elevação de preços que ocorreu naquela época. Nos últimos doze meses, o índice bateu 9% na Inglaterra, maior percentual em 40 anos; saltou para 8,1% na Zona do Euro, um recorde; e atingiu 8,6% nos Estados Unidos, maior patamar desde 1981.

Para tentar domar esta inflação elevada, os Bancos Centrais vêm subindo as taxas de juros, processo que impactará negativamente o crescimento mundial pelos próximos anos. Há um desafio digno de equilibrista neste processo, pois o objetivo é conter os preços sem jogar as economias em recessão.

O próprio Banco Mundial evoca os anos 1970 em seu relatório ao falar do momento atual. Em 1973, em retaliação aos EUA e a países que apoiaram Israel na Guerra do Yon Kippur, a Arábia Saudita e outros produtores de petróleo impuseram embargos à comercialização do produto. Foi o primeiro choque do petróleo que elevou a inflação mundial e deixou os consumidores com menos dinheiro no bolso.

O preço das commodities explodiu e ficou alto por muito tempo. Em apenas cinco meses, entre outubro de 1973 e março de 1974, o petróleo aumentou 400%, desestabilizando a economia global. Em 1979, com a revolução iraniana, ocorreu o segundo choque do petróleo, que dobrou de preço.

Para reduzir a inflação, os países desenvolvidos promoveram um forte aperto monetário que levou o mundo à recessão em 1982 e a uma série de crises financeiras em economias em desenvolvimento. No Brasil, esses choques puseram fim ao chamado "milagre" do crescimento e o país entrou numa espiral negativa que desembocou na década perdida dos anos 1980. Desde então, o país cresce pouco, e em soluços.

A despeito das semelhanças, há diferenças também, felizmente. As instituições financeiras hoje são mais sólidas, o dólar está forte, os Bancos Centrais já estão agindo para derrubar a inflação e a valorização das commodities está mais contida.

De toda forma, o Banco Mundial defende que é necessário trabalhar para limitar o impacto da crise, sobretudo para os mais vulneráveis. Diminuir os efeitos da escalada de preços de petróleo e alimentos, ampliar o alívio de dívidas e expandir a vacinação global contra o coronavírus, que ainda está abaixo do ideal em países mais pobres, são algumas das medidas elencadas.

Países emergentes, como o Brasil, sentem com mais força os solavancos econômicos globais. Potencializadas pelas incertezas dos anos eleitorais, a inflação e a Selic altas (12,13% e 13,25% ao ano, respectivamente) impõem um preço bastante elevado para a população e para o setor produtivo. Temos uma tortuosa travessia pela frente.

Vandermir Francesconi Júnior
é 2º vice-presidente do CIESP e
1º diretor secretário da FIESP


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