Opinião

Fomento ao DEcrescimento econômico

Todas as empresas de bens 'duráveis' criam produtos para quebrarem com o tempo


Alexandre Martins
Elisa Carlos
Crédito: Alexandre Martins

300 anos atrás, quando o capitalismo é inventado por Smith, nossa política passa a se basear no crescimento econômico como propulsor do desenvolvimento social. Com esse impulso, o crescimento da população torna-se evidentemente exponencial. Demoramos 299.800 anos para atingir o primeiro bilhão e mais 200 anos para atingir quase 8 bilhões de pessoas.

Quando a gente estuda ecologia no colegial, aprende que não há nenhuma espécie num ecossistema em equilíbrio capaz de crescer exponencialmente. O ecossistema, como um sistema vivo, se auto-regula e algo acontece que se incumbe de controlar a espécie em desarranjo. São poucos os casos anômalos, como por exemplo o câncer, que promove um crescimento acelerado e desenfreado e cujas células em vez de morrerem, crescem.

A Folha de São Paulo trouxe uma matéria sobre o "Degrowth", teoria econômica, datada de 1970 com estudos do MIT e retomada atualmente pelo antropólogo Jason Hickel, cuja base é definir a produção mundial de bens a partir das necessidades humanas em vez de a serviço do lucro corporativo. Os adeptos sugerem fortemente a redução da produção e do consumo principalmente nos países ricos, freando a indústria de fast fashion, dos combustíveis fósseis e promovendo leis contra a obsolescência programada.

Não sei se vocês sabem, mas todas as empresas de bens "duráveis" (carros, geladeiras, computadores etc) criam os seus produtos de forma que se quebrem ou percam suas performances em determinado tempo para que o consumo de um novo produto seja incentivado. É a mais pura verdade que as máquinas de lavar das nossas mães duram muito mais do que as dos nossos filhos.

Se os seguidores de Schumpeter e Smith não desistiram de ler esse texto até agora, tenho certeza que estão dizendo que a nossa existência depende da continuidade do ciclo econômico: é o consumo que garante os empregos e os salários que garantem o consumo. Em consonância, Hickel sugere fortalecer outros setores industriais como energias renováveis, saúde pública, agricultura regenerativa e serviços essenciais. De fato, o que vemos corriqueiramente é pessoas com celulares bons nas mãos e cáries nos dentes.

Interessante é que geralmente o discurso político a favor do crescimento econômico é pautado na saúde publica, dizimar a fome, diminuir a pobreza, reduzir a desigualdade social etc. Com o aumento de 5 vezes do PIB mundial nos últimos 30 anos, de fato, a mortalidade infantil reduziu, a pobreza extrema diminuiu, mas o acúmulo de capital e o aumento da desigualdade de renda é evidente. Hoje os 10% mais ricos do mundo controlam 76% da riqueza global, enquanto os 50% mais pobres têm acesso a 2%. A fome continua significativamente relevante: perto de 1 bilhão de pessoas estão desnutridas, e no Brasil 56% da população vive em insegurança alimentar. E o mais intrigante: "paradoxalmente", o câncer é a sexta maior causa de óbitos no Brasil e mata 10 milhões de pessoas por ano no mundo. Querendo a gente ou não, o planeta Terra é um sistema auto-regulado. (Dados: World Bank, 2018, Statisa, 2022, WID World, 2021, PENSSAN,PAHO, 2018 2020)

Elisa Carlos é mãe da Nina da Gabi, yogini, especialista em inovação e head de operação da Softex Nacional.


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