Opinião

O Brasil é possível

O processo que se deu em qualquer colonização foi de dor e exploração


 Arquivo pessoal
Samuel Vidilli
Crédito: Arquivo pessoal

Muitos pretensos formadores de opinião (e até alguns autodenominados intelectuais) vendem uma grande mentira sobre nosso país: que ele nunca vai dar certo.

E para isso recorrem a muitos artifícios. Um deles é utilizar a história para justificar suas opiniões atrozes. Desqualificam nossos personagens históricos, transformando-os em farsas. Diminuem a participação do povo e dos trabalhadores. Eliminam momentos significativos de nossa vida como nação.

Para essas pessoas, dentre outras lorotas, somos inferiores porque resultamos de uma colônia de exploração, e não de povoamento, como os Estados Unidos, a terra que deu certo. O Brasil nunca apagará a herança maldita portuguesa, que nos enviou os degredados, as prostitutas e toda a sorte de indesejados. Por isso, deve-se concluir que é graças à índole dessa gentalha que a formação de nosso país foi contaminada.

Trata-se de algo parecido com o que o cavaleiro de Lamarck, há mais de 300 anos, propôs: que as características adquiridas durante a vida eram repassadas para as gerações futuras. Essa lei ficou conhecida como lamarckismo, verdadeiro engodo do pensamento científico.

Nada pode ser mais mentiroso do que isso. Lembrar, por exemplo, de Dom Pedro I apenas pelo seu apetite sexual é esquecer todo o seu protagonismo político, astúcia ao fazer de uma filha rainha de Portugal e um filho Imperador do Brasil. Dom Pedro era um homem, com seus defeitos e qualidades. Não podemos nos concentrar em apenas um aspecto de sua existência.

Aliás, se Lamarck estivesse certo, Dom Pedro II seria um ninfomaníaco. Nada mais distante da realidade vivida por esse grande personagem histórico".

Ora, nós mesmos! Pensamos em nossas vidas e ações! Tem hora que somos bons ou ruins, dependendo do momento, da situação, das vicissitudes da vida. Assim sou eu, você é, assim foi a Princesa Isabel ou JK. Não conseguimos ter uma vivência totalmente boa ou ruim. Até os santos cometiam pecados...

O paralelo das "colonizações" - exploração e povoamento - é outro ponto de uma crueldade sem tamanho. Massacra a verdadeira forma de fazer e pensar história. Nunca existiu colonização sem exploração e consequente povoamento das terras conquistadas. O processo que se deu em qualquer colonização, em qualquer lugar, foi de dor e exploração. No Chile, aqui, na Indonésia. E nos Estados Unidos sim!

É importante tratar disso. Falar disso. Abrir a mente para esse ponto. Há muito ainda o que falar sobre essa característica tão feia que, com brasileiros, temos de depreciar quem somos e assim definir que não há como nosso país dar certo. É fundamental que possamos, de uma vez por todas, acabar com esse juízo de valores na história. Que nosso destino já foi traçado.

Se assim fosse, a Austrália seria o lixo do mundo, já que por muitos anos serviu como colônia penal da Inglaterra (e também por esse meio foi explorada).

Chega desse lamarckismo. Que a Musa Clio dê a todos nós, sempre, a capacidade de refletir através dos múltiplos domínios da História.

Samuel Vidilli é cientista social, professor e colunista do JJ a cada 15 dias


Galeria de Fotos


Notícias relevantes: