Opinião

A verdade está morrendo

Por que as pessoas acreditam? Porque querem acreditar, verdade ou não


Alexandre Martins
Felipe dos Santos Schadt
Crédito: Alexandre Martins

As vezes eu me pego pensando sobre a morte, mas eu sempre interrompo meus devaneios. Medo? Talvez seja uma defesa inconsciente que eu utilizo para não me deprimir com a pergunta: "Para onde irei?". Deve ser por isso que a morte me assusta, por não saber nada sobre ela. Mas essa profundidade de pensamento não se aplica quando o outro morre. "Para morrer basta estar vivo", é o que digo. Ou invoco o gênio Chicó, personagem icônico de Suassuna, que dizia para João Grilo que "tudo o que é vivo, morre". Mas existe uma morte, além da minha (que será iminente) que eu não estou conseguindo lidar bem. A morte da verdade.

Uma vez, Wagner Moura, um dos melhores atores brasileiros, famoso pelo Capitão Nascimento, no tropa de Elite I e II, deu uma entrevista para o Brasil de Fato em que diz sobre "Marighella", filme que dirigiu. Ele falou sobre a repercussão do longa e outras coisas sobre política. Mas o que me marcou nessa entrevista foi quando o ator, agora diretor, disse que a verdade como conhecemos havia morrido.

A afirmação doeu como um soco na cara. E doeu por que? Porque faz todo o sentido. Estamos vivendo em uma era de hipervalorização da estupidez que está a serviço de um sistema que só quer uma coisa: provar que um lado está certo e que tudo que não for alinhado a isso é errado e deve ser combatido. Quero dar exemplos.

Nando Moura, um youtuber famoso por seus vídeos contra a esquerda, postou um vídeo no qual condenava a ideia de uma suposta indicação do ex-presidente Lula ao prêmio Nobel da Paz. Para dar base no que ele acredita ser um absurdo (o ex-presidente ganhar tal honraria), ele desvaloriza a premiação dizendo que um dos maiores genocidas da história - Stalin - teria ganho o Prêmio Nobel da Paz duas vezes. Basta um Google para saber que esse fato jamais aconteceu. Mesmo assim, as pessoas acreditam. E por que acreditam? Porque é o que elas querem acreditar, verdade ou não.

Outro exemplo: Kin Kataguiri, líder do MBL e deputado Federal, fez um vídeo no qual criticava o marxismo. Nesse vídeo ele dizia que Karl Marx percebeu as falhas do Comunismo durante a Primeira Guerra Mundial. Bom, se você der mais um Google, ou se quiser ser mais criterioso e ir a uma biblioteca, conseguirá encontrar em qualquer enciclopédia a data de nascimento e morte de Marx. Verá que ele morreu em 14 de março de 1883. No mesmo Google, ou na mesma biblioteca, você também conseguirá pesquisar sobre o início da Primeira Guerra Mundial, que foi em 28 de julho de 1914. Logo, conseguirá com um pouco de matemática constatar que Karl Marx jamais poderia ter constatado que o Comunismo foi um fracasso na Primeira Guerra, pois ele morreu muito antes de ela acontecer. Mesmo assim, as pessoas acreditam. E por que acreditam? Pelo mesmo motivo do parágrafo anterior: porque elas querem acreditar, verdade ou não.

E os exemplos poderiam seguir ao infinito. Inclusive existe um livro com o mesmo título desse texto: "A morte da verdade", de Michiko Kakutani, que narra a maneira como Donald Trump se utilizou da mentira para vender suas ideias. É o que acontece aqui no Brasil agora, o uso da mentira descarada para provar um ponto de vista. "Se o ponto de vista for o mesmo que o meu, eu compro a versão contada, mesmo ela sendo uma mentira".

Sendo assim, não é mais a verdade que forma uma ideia, é uma ideia que cria uma suposta verdade. Por isso Wagner Moura está cercado de razão. A verdade, como conhecemos, morreu! Mentiras serão contadas para massagear egos, comprovar teorias, arrebatar rebanhos e perpetuar tiranias. E isso já começou. Basta olhar o discurso mentiroso de Bolsonaro sobre as urnas eletrônicas.

Se a mentira prevalecer diante dos fatos para satisfazer demandas, sejam lá quais forem, estaremos caminhando a passos largos para ver a verdade definhar até a morte. O velório não será bonito e o enterro, pior ainda.

Conhecimento é Conquista!

FELIPE SCHADT é jornalista, professor e cientista da comunicação pela USP


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