Opinião

Senhor compositor

Até hoje, "Portela na avenida" esquenta a escola no sambódromo


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FERNANDO PELLEGRINI BANDINI
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Seu nome nem sempre é reconhecido, mas suas canções sim. Compôs com gente nascida nos séculos 19 e 20, e continua na ativa no século 21. Paulo César Pinheiro empresta seu talento para a canção popular brasileira, assim como para o teatro e a literatura. Foi parceiro musical do veteraníssimo e imortal Pixinguinha e do contemporâneo Lenine. E a esses acrescente-se a constelação formada por Baden Powell, Tom Jobim, Eduardo Gudin, Francis Hime, João Nogueira, Toquinho, João de Aquino, Rafael Rabelo... Carioca nascido em 1949, Paulo César morou sempre no Rio de Janeiro, mas rodou por todo o país.

Poeta e letrista precoce, aos 14 anos compôs "Viagem", com João de Aquino, seu amigo de infância, vizinho no bairro e primeiro parceiro ("Oh, tristeza me desculpe/Estou de malas prontas/Hoje a poesia/Veio ao meu encontro/Já raiou o dia/ Vamos viajar...").

João era primo do violonista Baden Powell e que, numa festa de família, ouviu composições da dupla. Com Baden foram mais de cem canções. A primeira a fazer sucesso foi "Lapinha", gravada por Elis Regina ("Quando eu morrer/ Me enterrem na Lapinha/Calça culote, paletó almofadinha..."). Elis, por sinal, emplacou um sucesso atrás do outro, como o arrasa-quarteirão "Vou deitar e rolar" ("... e agora, cadê teu novo amor (...) Cadê que ele nada resolveu/Quaquaraquaquá, quem riu/Quaquaraquaquá, fui eu..."). A canção surgiu de treta de Baden com uma ex. Em entrevista, Pinheiro comenta bem humorado que os problemas são de seus parceiros, e que ele, Paulo César, "pouco se entrega". Na linha da dor de cotovelo, nasceram "Cicatrizes", com Miltinho ("Amor, que nunca cicatriza/Ao menos ameniza a dor/Que a vida não amenizou...") e "Última forma", com Baden ("É, como eu falei/ Não ia durar/Eu bem que avisei/Pois é, vai desmoronar/Hoje ou amanhã um vai se curvar...").

Casou-se em 1973 com Clara Nunes. Ela lhe pediu um samba para a Portela, por quem era apaixonada. Ele, mangueirense, tentou se esquivar, mas a mulher insistiu e a letra apareceu a partir do altar religioso que Clara mantinha em casa: "Portela, eu nunca vi coisa mais bela/Quando ela pisa a passarela/E vai entrando na avenida/Parece a maravilha de aquarela que surgiu/O manto azul da Padroeira do Brasil..."). Até hoje, "Portela na avenida", parceria com Mauro Duarte, é o samba que esquenta a escola antes de entrar no sambódromo.

Inquieto, pesquisador, Paulo César foi, a convite de Edil Pacheco, até a Bahia conhecer grupos de ritmistas. Isso na década de 1980, antes da explosão do axé. Percorreu cidades do Recôncavo e produziu o disco "Afros e afoxés da Bahia", em que aparecem grupos que se tornariam referência, como o Ilê-Aiyê.

Leitor de Guimarães Rosa, compôs "Sagarana", gravada por Clara Nunes. Com Tom Jobim veio "Matita Perê", canção que dialoga com o universo do escritor mineiro. Com João Nogueira, a lista de belezuras pode ser encabeçada por "Espelho" e "Súplica". E versos desta última encerram a homenagem ao gênio da raça: "O corpo a morte leva/A voz some na brisa/A dor sobe pras trevas/O nome a obra imortaliza". O nome é o de Paulo César Pinheiro.

FERNANDO PELLEGRINI BANDINI

é professor de Literatura no

Ensino Médio


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