Opinião

Sobreviver a uma reforma

Tudo o que foi previsto encareceu de maneira extraordinária


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Jose Renato Nalini
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Não sei se isso acontece com todos. Comigo aconteceu. Em virtude de uma queda, em que fraturei o braço esquerdo e tive de me submeter a uma cirurgia para redução, houve o decreto de que eu estava decrépito. Meu apartamento deveria ser adaptado para a ancianidade. Tive de desistir da construção de uma biblioteca na chácara, com projeto do fabuloso Araken Martinho, para investir na minha residência. Com acréscimo de um argumento de meu filho xará: "Pai: de que adianta uma pirâmide na chácara, se o Faraó mora na capital?".

Cedi. Não sabia que tudo o que eu amealhara era antiquado, inadequado e inservível. Tive de transportar tudo para a vivenda rural. Transferir-me para outro apartamento, com todos os meus pertences encaixotados. E começa o calvário da reforma.

Os primeiros projetos datam de outubro de 2021. Inúmeras vezes revisados. Mal acomodado, sem encontrar aquilo de que necessito rotineiramente, começam os gastos. Tudo o que foi previsto encareceu de maneira extraordinária. Primeiro era o efeito da pandemia. A construção civil não parou e os materiais tiveram acréscimo incrível. Depois disso o argumento foi a guerra na Ucrânia. Faltam materiais. Encomenda-se e os prazos não são cumpridos.

A fase da remoção de paredes passa a incomodar vizinhos. Estou no décimo andar e o morador do nono, mal chegado ao condomínio, simplesmente sobe um andar e manda os trabalhadores interromperem o trabalho. Eles obedecem. Não sabem, na verdade, quem é o proprietário e quem paga pelo serviço.

Há de obedecer às restrições convencionadas pelo condomínio, que os romanos, com carradas de razão, chamavam de "mater rixarum", ou seja, a mãe de todas as encrencas.

A obra anda a passos mais do que lentos. Para a arquiteta, está tudo conforme. O prazo de cento e vinte e cinco dias já se escoou e ainda não há previsão de entrega. Para compensar, a minha filha caçula, verdadeira "mestra de obras", faz com que alguns serviços sejam refeitos, por não condizerem exatamente com a tonalidade que ela exigia.

Começo a dormir mal, a ter pesadelos, a acordar muito antes do que deveria. E passo a consumir medicamentos para ansiedade e depressão. A mera leitura da bula me deixa mais do que estressado.

As contas se avolumam. Penso que essa reforma custará mais do que a aquisição de um novo apartamento. E o que fazer? Agora é terminar.

Lembro-me da última reforma experimentada. Era a casa onde residi durante trinta anos, à rua 15 de Novembro. O crescimento da família fez com que renunciássemos ao grande recuo, ao jardim sempre florido, para fazer a edificação chegar aos lindes com a via pública. O projeto foi do Sr. Ulysses Martinho, justamente o pai do Araken. Meu pai cuidou de tudo e imagino o sacrifício de minha mãe, com pedreiros em casa durante mais de um ano. Equipe comandada por Augusto Tega, outro amigo de meu pai.

Como eu passava o dia fora, entre estudo e trabalho, não sofri aquilo que agora me parece um purgatório. Digo à minha filha, que decide tudo por mim - com a maior boa vontade - que talvez não resista ao término dessa obra que costumo chamar de "Sé de Braga", devido à sua duração.

Enfim, experimento a troca de bastão decisivo, ora entregue aos meus filhos. Afinal, tudo o que fiz e consegui amealhar, muito pouco, na verdade, é para eles mesmos. Se eu sobreviver à reforma, contarei como foi.

José Renato Nalini é Reitor da UNIREGISTRAL, docente da Pós-Graduação da UNINOVE e Presidente da ACADEMIA PAULISTA DE LETRAS - 2021-2022.


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