Opinião

Conexões e realidade

Assim como o corpo humano é complexo, também é a inovação


Alexandre Martins
Elisa Carlos
Crédito: Alexandre Martins

São as conexões que tornam o mundo "real".

Diz que em poucos dias praticamente todo o nosso corpo é um novo corpo, feito de novos e frescos tecidos. Nos transformamos em uma nova pessoa, e no entanto, se por acaso encontramos um amigo num café, ele ainda é capaz de nos reconhecer. Na mesma lógica, tudo no planeta é feito pela combinação de míseros 116 elementos, e obviamente, nem sempre juntar os mesmos elementos resultará na mesma coisa, ao contrário, é muito provável que sejam coisas completamente diferentes. São as conexões entre os átomos que definem as aparências e são as conexões entre os indivíduos, instituições e ambientes que definem a inovação.

Quando nosso corpo está reciclando nossas células do rim, se reproduz um certo padrão de conexão entre os átomos, moléculas, células, tecidos. Os yogis sabem que esses padrões podem mudar pelas nossas condições mentais.

Numa universidade da Califórnia, cientistas estudando cimática (o padrão físico produzido pela interação de ondas sonoras em um ambiente), comprovaram que o entoar do mantra OM por monges, por um determinado período de tempo em uma mesma frequência, é capaz de modificar o padrão de determinada matéria. Os budistas e a indústria da beleza também sabem que esse padrão muda com o passar do tempo. Talvez se demorarmos uns 40 anos para rever aquele mesmo amigo tenhamos mais dificuldades de reconhecê-lo.

O universo se comporta de forma muito parecida em situações muito diferentes. Da mesma forma que o corpo humano é complexo e dinâmico, assim também é a inovação. Até 1960, a inovação era praticamente toda fechada, reduzindo suas conexões aos times internos.

As grandes corporações ou universidades se bastavam para percorrer todo o caminho necessário para criar um novo produto, mantendo inclusive todo o processo em segredo, na tentativa de ganhar a sensação de monopólio (lembrando que inovação não é criar um novo produto, serviço ou processo, mas sim um novo produto, serviço ou processo que modifique substancialmente o comportamento de um número relevante de pessoas).

Com o aumento gradativo de níveis de complexidade do mundo: a expansão agrícola, guerra fria, queda do muro de Berlim, abertura de mercados, internet, expansão das startups, redes sociais e as novas tecnologias habilitadoras, os processos de inovação foram se abrindo.

Em 2003, o diretor de um centro de inovação da Califórnia, Henry Chesbrough, foi ganhando espaço e disseminou em dez anos a inovação aberta como condição necessária para o desenvolvimento de produtos de fato competitivos e relevantes para um novo mundo.

Com a inovação aberta, ampliam-se as fronteiras da instituição, que passa a reconhecer a relevância de outros players no fluxo contínuo de conhecimento, ampliando o processo de criação para além dos limites dos times internos. Criando, assim como no corpo humano, uma grande rede de conexões, aumentando a interdependência. Da mesma forma, que um rim não funciona sem o coração e os outros órgãos do corpo humano, as organizações inovadoras também não funcionam de forma independente.

Elisa Carlos é mãe da Nina e da Gabi, yogini, especialista em inovação e head de operação da Softex Nacional.


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