Opinião

Romaria

Cada etapa das imagens me acompanhou na alegria e na tristeza


 Arquivo pessoal
Maria Cristina Castilho de Andrade
Crédito: Arquivo pessoal

De certa forma, a moça veio até a Associação Maria de Magdala em romaria. Assim acontece com todas as mulheres em situação de vulnerabilidade social que nos procuram em busca de uma esperança existencial diversa.

Ela me fez lembrar a composição de Renato Teixeira: "...Me disseram, porém/ Que eu viesse aqui/ Pra pedir de romaria e prece/ Paz nos desaventos/ Como eu não sei rezar/ Só queria mostrar/ Meu olhar, meu olhar, meu olhar. / Sou caipira, pira, pora, /Nossa Senhora de Aparecida/ Ilumina a minha escura/ e funda o trem da minha vida. /"

A mãe dela, entre presenças e ausências, veio há muitos anos. Longe ou perto, nunca se perdeu de nós e nós nunca nos perdemos dela. A moça nos conhecia das horas de festividade e nós também sabíamos dela pela mãe.

O impacto maior de mais esse acontecimento de Deus no trabalho teve início em dezembro, quando a mãe decidiu pelo Sacramentos da Confissão e da Primeira Eucaristia, passadas seis década de sua vida. Padre Márcio Felipe de Souza Alves, assessor espiritual da Pastoral, a atendeu e a Primeira Comunhão aconteceu em janeiro. A filha acompanhou e se sentiu tocada na alma. Alguns não creram na firmeza da decisão materna, considerando que não conseguiria se desligar da escuridão de outrora. Fez-se, no entanto, o milagre: Cristo venceu, a partir daquele dia, na vida da mãe.

A moça, pela diferença nas atitudes da maternas, veio para as reuniões da Palavra na Pastoral/Magdala e foi lá que decidiu que o filho, agora com dois meses, seria chamado de José, José de Maria.

Durante a gravidez, comprou duas imagens grandes de gesso de Nossa Senhora Aparecida e resolveu pintá-las, mesmo sem qualquer preparo anterior para isso. Uma para a sede da Magdala e outra para colocar no túmulo que a entidade possui no Cemitério Montenegro. A avó, que criou a ela e aos irmãos, está lá enterrada.

Ao ver as imagens, encantei-me. De uma delicadeza.As imagens, para nós, são como fotos, lembrança de quem, por sua santidade, fez a diferença no mundo. Não são para adoração. Pintou-as de cor escura, como a encontrada no Rio Paraíba do Sul. Uma pintou com o manto de branco e o outra, azul. Enfeitou-as com miçangas douradas e perolinhas.

Perguntei-lhe sobre o trabalho. Disse-me que, assim como Nossa Senhora está sempre presente nos momentos mais difíceis, a Pastoral/Magdala também. Fez como forma de gratidão e acredita que em cada artesanato a pessoa deixa um pouco de si. Afirmou: "Todo o processo delas têm tanto sentimento e emoção, pois comecei a planejar antes de ganhar o José e terminei depois que ele nasceu. Quando cheguei da maternidade e vi as imagens sem cor, sabia que tinha algo que me esperava em casa. Cada etapa daquelas imagens me acompanhou na alegria, no cansaço, às vezes na tristeza, em todas as emoções que se encontravam bagunçadas com o puerpério. Todos os dias, eu fazia um pouquinho entre as sonecas do José. Sentava, me dedicava e com Nossa Senhor desabafava. Foi um processo lento. Quando ficou pronta, fiquei tão orgulhosa... Senti que ali tinha o melhor de mim. É maravilhoso conseguir materializar sentimentos bons em alguém que a gente ama e que será amada também. A escolha das perolinhas porque significam a transformação da dor em algo lindo".

Vitória do Céu.

Maria Cristina Castilho de Andrade é professora e cronista


Notícias relevantes: