Opinião

John Huston encarou Freud


Alexandre Martins
Rafael Amaral
Crédito: Alexandre Martins

Ao anunciarem que Steven Spielberg faria sua versão de "Amor, Sublime Amor", torci o nariz, achei estranho. Spielberg nunca havia realizado um musical e é sempre lembrado por filmes fantásticos ou dramas sociais e de guerra. Para nossa surpresa, o resultado não poderia ser melhor: sua versão está à altura da anterior, levada ao cinema em 1961.

Não é incomum alguns cineastas pisarem em terrenos que lhes pareçam estranhos. Em seu tempo, John Huston foi tão versátil quanto Spielberg: fez noir, faroeste, comédia, aventura, drama de boxe (ele próprio foi boxeador na juventude). Encarou Melville em "Moby Dick", Kipling em "O Homem que Queria ser Rei", Joyce em "Os Vivos e os Mortos" e, entre outros, Arthur Miller (em pessoa) em "Os Desajustados".

Huston parecia capaz de adaptar qualquer material à grande tela. Prova disso é seu filme sobre Sigmund Freud, ainda o mais lembrado sobre o pai da psicanálise. Adaptar a vida de um grande pensador - ou parte dela - é uma dificuldade quando se trata da arte e da necessidade de síntese a certas cinebiografias. Algo sempre fica de fora.

É difícil agradar a todos: ao mergulhar demais nas ideias do retratado, corre-se o risco de espantar o público em busca do homem; ao se lançar demais no homem, corre-se o risco de afastar os especialistas da área do pensamento em destaque.

Provavelmente poucos professores de psicologia indicariam "Freud - Além da Alma" a quem quer entender um pouco mais sobre psicanálise. O filme é forte, tem mais altos do que baixos. Freud é interpretado de forma contida e acertada por Montgomery Clift, que havia atuado ao lado de Marilyn Monroe e Clark Gable em "Os Desajustados". À época, em 1962, Clift já não era mais o galã de "A um Passo da Eternidade".

Freud tem 29 anos quando a história tem início. Atraído pelo tratamento de pacientes histéricos com hipnotismo, ele assiste a algumas experiências em Paris, o que gera desgaste com os médicos de seu círculo mais próximo, em Viena. Na capital francesa, conhece casos de pacientes paralisados que voltam a andar quando hipnotizados.

O único de seu círculo a lhe dar atenção é o médico Joseph Breuer (Larry Parks), a quem a mente humana ainda escondia muitos labirintos. Só não podia imaginar que Freud iria mais longe. O rompimento entre ambos seria inevitável. Na base dessa rusga está uma paciente de Breuer, a bela Cecily Koertner (Susannah York). Freud acreditava - e, segundo Huston, estava certo - que os problemas dela tinham em sua raiz o amor pelo pai, encontrado morto em um prostíbulo. O outro médico não concordava com o laudo.

As ideias de Freud sobre questões que envolvem o sexo - resumidas aqui no complexo de Édipo - conduzem à batalha seguinte, a mais difícil. Quando apresentadas ao círculo de médicos vienenses, geraram desaprovação e vaias. Houve quem cuspisse no chão. Nem Breuer poderia aceitá-las. Para Freud, o filho tem desejos pela mãe e por isso abre um confronto com o pai. Ele próprio viveu isso na pele e não reconhecia.

O caminho de Freud ao inconsciente é retratado por Huston com escuridão. Seu filme é aprisionante, envolto em tom expressionista. Não se parece com nada que o cineasta havia feito, alguém lembrado por levar seus personagens a aventuras físicas, lugares inóspitos e culturas distantes da nossa. Seu "Freud" é a prova de que o risco compensa - mesmo quando não vemos com clareza a assinatura do autor.

Rafael Amaral é crítico de cinema e jornalista; escreve em palavrasdecinema.com


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