Opinião

Abrir espaço para o novo

Convido o leitor a revisitar seus conceitos e, quem sabe, abrir mão de alguns


Alexandre Martins
Alexandre Martin
Crédito: Alexandre Martins

Um dos problemas comuns que o acupunturista enfrenta é encontrar um canal de energia obstruído, sem o fluxo energético que lhe é adequado. Para que esse fluxo seja restaurado é necessário que se abra espaço, que se abra o caminho para o fluir da energia vital. Tentar colocar uma nova energia em um espaço restrito ou mesmo fechado, é desperdiçar tempo e recurso, pois não será absorvida e se perderá no processo.

Dada a importância de se abrir espaço para renovação de energia e, por conseguinte, a renovação da vida, todo bom terapeuta deve saber estratégias para que os canais se abram, criando um espaço para o novo.

Existe uma história que ilustra muito bem o conceito de "abrir espaço", ocorrida com Eugen Herrigel quando foi designado em uma missão cultural no Japão, nos anos 50, história descrita no seu livro "A Arte Cavalheiresca do Arqueiro Zen" (aconselho).

O autor, que havia servido no serviço militar americano e por isso tinha experiência com o tiro, resolveu escolher o estudo do tiro com arco e flecha no estilo japonês (chama-se Kyu-dô) para se aculturar e entender a filosofia chamada Zen, muito presente na tradição do oriente como um todo. Ele imaginou que os seus conhecimentos prévios lhe dariam certa vantagem no aprendizado dessa disciplina.

A verdade é que a tentativa de aplicar seus conhecimentos com fuzil no manejo do arco e flecha não só se provaram infrutíferos, como geraram um obstáculo muito grande para o início da prática. Ele mal conseguia esticar a corda do arco de maneira adequada, ao passo que o seu mestre, um idoso japonês de aparência frágil e esguia, o fazia repetidas vezes, com tal facilidade que parecia não fazer esforço algum.

Todas as vezes que Eugen tentava esticar a corda o mestre tocava em algum ponto das suas costas mostrando que a tensão dos músculos era excessiva e isso iria comprometer o sucesso do tiro. Ele tentou de todas as maneiras e técnicas que conhecia para controlar a força e o tremor das mãos, mas tudo em vão.

Até que chegou um momento em que ele, farto mentalmente e exausto fisicamente, falou para seu mestre que não importava o que tentasse, ele simplesmente não conseguia fazer a tarefa proposta, por mais simples que fosse.

O mestre então lhe disse: "O senhor fracassa pois está respirando de maneira incorreta". Ele conta então o processo que passou para aprender a respirar: de maneira profunda e lenta, com o diafragma, sincronizando movimento do corpo todo com o movimento essencial do fluir e refluir do ar.

O exercício, depois de várias semanas, mostrou-se eficaz, conseguindo coordenar os seus movimentos de forma a puxar a corda do arco de maneira uniforme e firme, sem produzir tremor ou força excessiva, permitindo fazê-lo rápida e precisamente.

Algum tempo depois perguntou a um aluno avançado o porquê de o Mestre não ter falado logo na primeira aula da importância da respiração.

"Veja" , disse o aluno, " Se o mestre não permitisse que você fracassasse em seus esforços, não perceberia a importância capital da respiração no processo e não abriria espaço para esse conhecimento tão necessário no aprendizado da arte" .

Convido então o leitor a revisitar seus conceitos e, quem sabe, abrir mão de alguns deles, para que possam entrar ideias novas que por sua vez, levarão a novos olhares.

Alexandre Martin é médico acupunturista e formação em medicina chinesa e osteopatia.


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