Opinião

Casa cor, concreto e veludo


Divulgação
Eduardo Pereira
Crédito: Divulgação

Um sucesso desde os primeiros dias de abertura, a edição da Casa Cor, que comemora 35 anos, presenteia o público que vai até ali com o interesse na mudança de vida, no conforto e em novidades. Embora não tenha sido divulgado o número de visitantes que já estiveram nos ambientes, dependendo do dia e da hora os espaços estão sempre lotados. Muita gente junta em um evento que não víamos há anos e que agora se transforma em uma grande festa. Motivos e novidades têm sobrando, bom gosto falta, assim como mais obras de arte.

Como se o 'menos é mais' atingisse exatamente coleções importantes de arte para dar lugar a vazios nem sempre competentes. Os exageros de decoradores ultrapassam limites. Pelo menos três fizeram lugares que não funcionam nem como vitrine, mas boa parte faz jus aos temas da tropicalidade da valorização das madeiras e materiais naturais e sustentáveis. O que sobra são sofás em forma de feijão, ou de rim, uma febre frenética pela opção desses modelos que vão até o redesenho do Pão de Açúcar como encosto do sofá.

Aberta de 5 de julho a 11 de setembro, os 59 ambientes projetados por 57 profissionais estão abrigados este ano em novo endereço na avenida Paulista. O local escolhido são os 10 mil metros quadrados do mezanino de um dos prédios mais icônicos de São Paulo, um marco arquitetônico modernista projetado em 1955 pelo arquiteto David Libeskind: o Conjunto Nacional.

O vazio abandonado do edifício é o grande mote dessa edição, todos os espaços deixam à mostra essas estruturas e coberturas de concreto, que nos mais bacanas ambientes esse grotesco cenário casa perfeitamente com a ideia do brutalismo, do tosco, como carne exposta. Isso vai pegar, desde as arquiteturas do século 20 de Artigas e seus seguidores o brutalismo paulista teve êxito e foi realizado em centenas de memoráveis casas e arquiteturas públicas, onde o concreto era o grande e único material de destaque. Lourenço Gimenes, arquiteto e responsável pela consultoria e projeto de uso para ocupação dos 10 mil m2 do vazio diz: "Trata-se de um espaço de planta livre, modular, ritmado por pilares, com marcas do tempo e de usos anteriores. Pensamos numa intervenção delicada, capaz de ressaltar a crueza desse cenário, preservar as nervuras do concreto e levar o visitante a uma imersão no projeto original".

A edição comemorativa teve curadoria de Livia Pedreira, Pedro Ariel Santana e Cris Ferraz que, amparados em pesquisas de tendências, definiram o conceito com o tema 'Infinito Particular' que busca refletir sobre a necessidade de projetar ambientes que priorizem o conforto, harmonia, equilíbrio e bem-estar mental, espiritual e físico. Esse equilíbrio foi, sem dúvida, o que mais motivou pessoas isoladas em arrumar suas casas e sentiram como é importante os espaços domésticos. Enfrentar a pandemia exigiu de todos uma melhora no ambiente da casa, da performance, funcionalidade e beleza, comprovando o êxito da Casa Cor e sua perenidade

Eduardo Carlos Pereira

é arquiteto e urbanista


Notícias relevantes: