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Cristina Castilho: Constatações da violência

MARIA CRISTINA CASTILHO DE ANDRADE - opiniao@jj.com.br | 04/03/2018 | 20:59

Conversava com as integrantes da Pastoral da Mulher/Magdala sobre, ao se falar da violência, as cenas que lhes vêm de imediato, exceto as que são matéria em programas de televisão. O assunto foi baseado no tema da Campanha da Fraternidade: “Fraternidade e superação da violência” e no lema “Vós sois todos irmãos”. Guardam com elas imagens que doem na alma. Tenebroso descobrir, através das frestas da janela, o motivo do gemido da senhora, que há tempo não via na rua: o filho a violentava. Moravam somente os dois naquela casa pobre da vila. Chamaram uma pessoa adulta. Veio a ambulância e a polícia. A senhora, de olhar em súplica, ao sair na maca, conseguiu, com voz fraca, dizer-lhes: “Obrigada”.

MARIA CRISTINA CASTILHO DE ANDRADE ARTICULISTA

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O filho, ao chegar à cadeia, sofreu na cela violência semelhante à que impunha à mãe. Ao adentrar o hospital, sangrando, viu o corpo materno em direção ao necrotério. E teve, ainda, dentre outros acontecimentos das histórias delas, a da moça apaixonada, que se submeteu aos desconcertos do marido.Ele pensava somente no ritmo do instrumento de percussão que tocava. O desajuste, sem tratamento, foi crescendo: noites foras, álcool e agressões no amanhecer. Separaram-se na gravidez da quarta filha. Rondava a ex-esposa, sem conseguir se aproximar. A bebê estava com três meses quando ele a esfaqueou no ponto de ônibus. Na cadeia, desistiu de viver. A avó materna não resistiu. Foi com a filha quinze dias depois.

O avô materno, já aposentado, as criou e as fez do bem. As duas histórias possuem um viés semelhante ao das delas: abuso sexual sem condições de se defender e a ausência, por situações de miséria, de um colo que acalentasse, alimentasse, afastasse os fantasmas e curasse as dores físicas e do coração. Ao final lhes perguntei se consideravam que a violência estava em ascensão ou diminuíra. Responderam em uníssono sobre o crescimento da brutalidade e concluíram, como justificativa, que isso se deve ao Brasil não possuir leis. Bem assim: quem possui bens materiais, diante dos delitos, é “amparado legalmente” nisso ou naquilo. Os pobres, que são sentenciados e detidos, caem num sistema em que a lei não é cumprida. E tantas outras situações que demonstram que o Brasil não possui lei única para o seu povo. Uma pena, também, que a Lei do Deus Misericórdia se encontra mais no discurso que na vivência.

MARIA CRISTINA CASTILHO é professora e cronista


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